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«Gosto que me tentem cativar»

01.02.2017

 

RUY MALHEIRO. Tem 15 anos de uma ligação ao teatro que se faz dentro e fora do palco. Por mais tempo que passe, não lhe falta o brilho no olhar e o entusiasmo na voz quando fala da magia do teatro. Assume-se como um "bom amigo" e um "ganda maluco". Resta-nos acrescentar que é, também, um excelente conversador.

 

 

Onde é que, por estes dias, te conseguimos ver?

Neste momento estou em cartaz com um espetáculo de microteatro intitulado Guarda-chuvas de chocolate a partir de crónicas de Lobo Antunes. Foi um texto que eu encenei para um outro ator, no contexto do Teatro Rápido, em 2012, e no ano de 2016 fizeram-me um desafio para o apresentar na minha terra natal, que é o Luso, mas no qual eu fosse ator e aí eu decidi pegar no texto que já tinha a dramaturgia fechada, re-encená-lo juntamente com o Paulo Morgado, mas desta vez comigo como ator. Este espetáculo está inserido num projeto que se chama Curtas de Teatro Fora de Portas que está a ser apresentado um pouco por todo o país que reúne três peças de microteatro. São três monólogos que têm vindo a ser apresentados em  dois formatos: ou no mesmo espaço físico mas em divisões distintas ou em percurso por edifícios emblemáticos das várias localidades. Este último é o formato que mais nos tem vindo a agradar e que mais sucesso tem tido. Estreámos no Luso, fizemos em Sesimbra, depois em Vila Real e estamos agora a fechar datas para voltar a Vila Real, eventualmente Ponte de Lima, Abrantes, Monção e mais uma série de sítios em negociação. Além disto, como diretor coreográfico, estou a ensaiar um grande espetáculo de rua que vai acontecer em Ovar, a 4 de fevereiro, que é uma produção do Trigolimpo Teatro ACERT de Tondela com quem colaboro com alguma regularidade. Depois, em Abril, já como intérprete vou participar na Queima e o rebentamento do Judas em Tondela.

 

Já estás há algum tempo a fazer essa peça de microteatro, como é que é fazer esse tipo de peça, ainda para mais sendo um monólogo?

Os monólogos são sempre um desafio acrescido. O ator está sozinho, não tem a contracena que o possa salvar de um imprevisto qualquer. Está sozinho, na corda-bamba, sem rede e tem de gerir tudo o que possa acontecer sozinho. A esse nível é um grande desafio. Por outro lado, a curta duração tem desafios acrescidos para o ator, para o autor e para o encenador. Num curto espaço de tempo têm de existir os picos que um espetáculo dito normal comporta. Requer o mesmo trabalho, requer exatamente o mesmo tipo de rigor que qualquer outro tipo de espetáculo de teatro. Tem é desafios diferentes que se prendem com a curta duração e, em 15 minutos, a energia tem de estar sempre presente, não podem existir quebras, se não, não funciona. É um desafio também porque, num contexto de uma Mostra de Teatro, faz-se sempre em sessões múltiplas, contínuas. O ator acaba por não estar em cena apenas 15 minutos, acaba por estar em cena uma hora e meia porque repete as sessões quase em loop. Para o ator é um exercício de endurance e é um grande desafio de representação porque a tensão não pode baixar. A pausa entre as sessões não é uma pausa para o ator, serve só para repor a cena e repor a energia, porque vem um novo público e não se repete, faz-se uma nova representação.  Cada sessão é única.

 

Isso tudo para dizeres que é muito cansativo...

É muito cansativo! Eu confesso que quando estive no Teatro Rápido nunca tinha estado como ator. Era o diretor de produção, tratava do acolhimento dos projetos, mas nunca estive como ator e quando me estreei, em agosto passado, fizemos só um dia e eu disse assim: "meu Deus, o que aquela gente [os atores que passaram pelo Teatro Rápido] passou durante um mês... é impressionante!". É um grande desafio que é diferente de qualquer outra experiência teatral que eu vivi até agora, não tem nada a ver.

 

E que experiência teatral tens tu?

Ui... Eu tenho um percurso muito diversificado. A minha primeira formação tem a ver com o design de moda que depois me leva até ao teatro.

 

Como?

Estava eu em Coimbra em 1996, já a trabalhar profissionalmente como designer de moda. Estava um pouco insatisfeito porque me dava gozo o lado da criatividade, mas não me satisfazia ter de estar a conceber coleções com timmings fechados e para produzir em série. Não tinha muito a ver comigo. Até que um dia me cruzo com um cartaz que anunciava a abertura de audições para um curso intensivo de teatro no CITAC e eu pensei "porque não?". Pedi informações, naquele momento havia vaga para uma entrevista, fiz logo a entrevista e fiquei. Foi por mero acaso e desde então nunca mais parei. Logo depois daquele curso, entrei num projeto do IEFP que era a Escola da Noite, em Coimbra. Tratava-se de um estágio de profissionalização para atores que durou um ano e meio. Fiquei ainda naquele projeto durante dois ou três anos e depois quis dar o salto e continuar a ter experiências diferentes e fui parar a ACERT, a Tondela, companhia com a qual me estreei a fazer um espetáculo de rua. Ao fim de seis meses havia intenção da companhia contratar um ator e eles contrataram 5 porque a equipa lhes agradou muito. Éramos muito polivalentes e dinâmicos e interessados. E por lá permaneci durante 10 anos até vir para Lisboa em 2008. Neste percurso todo fui fazendo espetáculos de múltiplos autores, dos mais clássicos a novas dramaturgias... Paralelamente a isto fui sempre apostando na minha formação. Sempre que tive oportunidade, fiz formação fora. Formação em várias áreas: corpo, movimento, diferentes técnicas, por aí... Em termos de formação académica, a única que tive foi o Mestrado que decidi fazer na Escola Superior de Teatro e Cinema. Quer pela vertente formativa, mas também para validar todo o percurso que tinha, uma vez que enão tinha até então qualquer validação académica e achava isso um bocadinho ridículo. Tinha 15 anos de experiência sem qualquer reconhecimento académico.

 

Agora sentes-te melhor por teres esse reconhecimento?

Não é por me sentir melhor, sinto-me mais confortável quando penso no futuro. Estou com 44 anos e daqui para a frente, a tendência será querer candidatar-me a determinados cargos no meio cultural e sem esta validação académica seria complicado. Foi um objetivo estratégico e também de enriquecimento pessoal, claro.

 

Ainda sobre o teu percurso, também tens tido um trabalho intensivo fora de palco, mas sempre ligado ao teatro.

Sim. Direção de cena, direção de produção, encenação, assistência de encenação, direção coreográfica, produção...

 

Como é que tem sido esse percurso?

Aconteceu sempre de forma natural. No seio do Trigolimpo Teatro ACERT, a companhia de Tondela onde eu estive 10 anos, foi onde comecei a dar os primeiros passos em produção. Quem quer que integre aquela equipa tem de fazer um bocadinho de tudo, estar em contacto com as várias áreas e é chamado a ter um papel muito ativo. Isto tem um carater quase formativo. Uma pessoa que saia da ACERT sai preparado para o mundo das artes de uma forma muito mais polivalente e eu não tinha esta consciência. Quando vim para Lisboa queria dar continuidade ao meu percurso enquanto ator, enquanto interprete e com o objetivo de continuar a investir em mim. A adaptação não foi muito fácil, é natural, porque é distinto vir de uma estrutura onde se está residente e onde existe maior estabilidade para, de repente, vir com uma mão à frente e outra atrás, bater à porta das companhias... Não é fácil. O meio é mais concorrencial e depois aconteceu uma pessoa que me tinha conhecido no seio da ACERT convidar-me para fazer a direção de produção de uma Mostra Internacional de Teatro que aconteceu em Oeiras [MITO]. Foi o António Terra, o diretor da Companhia de Atores, que me convidou. Eu na altura disse: "Oh António, vais-me desculpar mas eu não tenho bagagem para assumir o cargo de direção de produção de uma Mostra Internacional de Teatro" e ele disse-me "Tens, tens, Ruy. Podes não ser consciente disso, mas tens e és a pessoa que eu quero". E as coisas foram-se sucedendo. Fiz o MITO, depois o EntreMITOs, pelo meio houve uma rede de contactos que se foi criando e ao início eu recusava porque não conseguia ver-me como produtor e queria era trabalhar como ator.

 

E hoje em dia já te vês com um produtor?

Claramente. E sou consciente das minhas apetências e das minhas qualidades. Não quero parecer presunçoso, mas sou consciente de que o tipo de produção que faço é fundamental e muito distinto do que se aprende, por exemplo, na ESTC. As pessoas saem dos cursos de produção com uma grande lacuna que só a vida profissional lhes vai dar.

 

Qual é que é essa lacuna?

Não estão preparados para a realidade.

 

Qual é que é a realidade e que preparação é que precisam?

Precisam de ter um contacto mais próximo com a realidade das companhias e quando falo de companhias é uma coisa transversal: é importante conhecer-se o trabalho das grandes estruturas como um CCB ou um Teatro Nacional Dona Maria II...

 

E ao mesmo tempo das companhias de pequena dimensão...

Isso mesmo! Porque essa é a maior fatia no mercado de trabalho. São as pequenas companhias, as companhias independentes e os artistas independentes que querem começar a vingar no mercado de trabalho que precisam do trabalho de produção. Mas depois as pessoas saem dos cursos e não conseguem fazer esse trabalho. Saem preparadas para estruturas que já têm uma máquina de produção montada e a realidade é que, na maior parte das vezes, a máquina de produção tem de ser criada. É essa a realidade com que a maior parte dos produtores se depara quando se candidata a um trabalho de produção: se ainda não há uma estrutura de produção já criada e oleada, não conseguem criá-la. E formei esta opinião de forma consciente, depois de ter tido contacto muito próximo com quem tem saído dos cursos de produção e de todos os estagiários que recebo nas companhias onde estou. Reparo que as pessoas não vêm preparadas para a realidade e que vêm com um grave problema: falta de humildade e pouca versatilidade. Eu sou aquele tipo de produtor que, nas estruturas em que estou envolvido, não olho a meios. Ou seja, se não há dinheiro para contratar uma pessoa para pintar uma parede, eu não caio do pedestal e não sou menos capaz se pintar uma parede. E há pessoas recém formadas, jovens, que não pensam assim. Saem convencidas que o trabalho de produção é estarem ao computador e ao telemóvel. Não! Assim nunca serão bons produtores, têm de ser polivalentes.

 

Achas que os teus muitos papéis fora de palco saem fortalecidos por também seres ator?

Eu acho que é o inverso. Eu enquanto ator é que senti necessidade de ter contacto com as outras áreas. 

 

Mas não achas que nas outras áreas também és melhor profissional por seres ator?

Sim, sem dúvida. Ter um contacto com tudo o que comporta a criação de um espetáculo só me tornam melhor. Cada área sai enriquecida. Eu hoje já consigo separar melhor as águas e perceber o meu papel em cada projeto. Aconteceu-me entrar em projetos enquanto ator e nos mesmos estar a fazer produção ou desenho de guarda roupa e a determinada altura tive de perceber que não dava, porque depois eu ficava insatisfeito porque não fazia cada uma das coisas bem. Aprendi a separar as águas e quando estou como produtor não entro como ator, posso fazer uma assistência de encenação e estar a produzir, mas se estiver a encenar e a produzir, não entro como ator. No projeto do microteatro eu fui buscar o Paulo [Morgado] para me encenar e eu já tinha encenado aquele texto, mas desta vez assumi completamente o papel de ator.

 

E consegues separar isso assim tão bem?

Faço um esforço e peço que me digam quando estou a pisar o risco.

 

 

 

Depois de termos passado em revista o teu percurso, diz-nos: o que podemos esperar de ti nos próximos meses?

Estou muito envolvido com a Escola de Mulheres que é a companhia onde faço direção de produção. Comecei por ser produtor executivo para um espetáculo e depois integrei a equipa de produção e neste momento sou o diretor de produção e comunicação da estrutura e vou manter-me envolvido com o projeto, pelo menos até ao fim deste ano. Estou fortemente apaixonado por estar a trabalhar com a Escola de Mulheres. A Fernanda Lapa [fundadora e diretora do projeto] é um privilégio. Ela é uma individualidade na cena cultural com muitas particularidades e muito interessantes. É um privilégio. Depois, também sou diretor de produção da Buzico! Produções Artísticas num regime mais de part-time, mas envolvido em toda a produção de teatro da produtora. Estou envolvido no apoio à produção de pequenas companhias pelo país e aí são coisas pontuais. Pedem-me assessoria de produção e ou assessoria de comunicação. Depois também estou envolvido na produção e comunicação do Trigolimpo Teatro ACERT para as produções de 2017-2018 e, artisticamente, estou a dar continuidade às "Curtas de Teatro Fora de Portas" onde já estamos a trabalhar em três novos espetáculos de microteatro que podem não ser monólogos. Posso levantar um bocadinho o véu: a nossa intenção é trabalhar curtas de terror. Pegar nos contos tradicionais portugueses e fazer três curtas de terror para fazer em espaços não convencionais, preferencialmente devolutos. A ideia é aumentarmos a oferta dos pacotes de microteatro.

 

Além disso, e uma vez que já tiveste algumas experiências em televisão, diz-nos: é uma área onde gostarias de voltar?

As minhas experiências em televisão foram todas pontuais. Gostava de ter alguma continuidade porque sinto que não usufrui nem contribui a 100% para projetos em televisão. As experiências que tive foram todas muito fogazes e eu ainda não "curti", ainda não tirei grande prazer da experiência de fazer televisão e gostava de continuar a ter mais algum contacto para depois decidir se sim se não. Se gosto ou não. E, neste momento, é para aquilo que me sinto mais disposto, porque como o trabalho de produção me tira tanto tempo, sinto que não consigo abraçar nenhum projeto mais longo de teatro com meses de ensaios. Em televisão, uma vez que são trabalhos mais pontuais, sinto-me mais disponível. Gostava muito de poder experimentar mais televisão. Sei que é um meio complicado, mas pode ser que com a ajuda da Buzico! Agência consiga.

 

Depois de tudo isto e para quem continua a não conhecer-te, quem é o Ruy Malheiro?

Epá, quem é o Ruy Malheiro? O Ruy Malheiro é um "ganda maluco"... (risos) É uma pessoa bastante empenhada e que se entrega com paixão às coisas. Quando abraça um projeto, se decide abraçá-lo, é porque está de corpo e alma. Não sei estar nas coisas de outra forma. Se não for para estar assim, não estou. Sou um bom amigo e um excelente companheiro de desafios, de riscos, de aventuras. Sou otimista e não digo não à cabeça. Gosto sempre que me tentem cativar. Dou sempre o benefício da dúvida - às coisas e às pessoas - é difícil fechar a porta às pessoas.


 

Agradecimentos: Village Underground Lisboa, Cafetaria Village

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

 

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