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Contentor 9: Abertamente inconclusivo

O ver, o ler e o escutar encerram um tempo necessário para que deles surta o entendimento. Falo duma conversa, duma pessoa ou dum livro, dum espectáculo, dum trecho musical, dum quadro ou duma escultura, a órbita do que é da ordem da percepção

Reparo, não de agora, na necessidade crescente e quase obsessiva de muita gente emitir opinião logo no imediato. Detesto e mais ainda odeio o género do sai disparado da sala e profere catadupas de considerações. Não só acho que há um abismo entre uma opinião (fundamentada e madura) e uma impressão (imediata superfície) como opera, ainda que inadvertidamente, um atropelo do que possa ser o início do processo de apropriação da coisa por parte do(s) outro(s). 

 

Opinar não é por si só uma instância de validação. Será, antes de tudo o mais, uma partilha. Uma opinião, emitida assim, parece sempre decorrer mais da invocação duma razão do que do real entendimento do que se viu, leu, ouviu, provou, tocou, etc. É óbvio que tudo isto vai do jeito de cada um; eu sou dos lentos, reconheço! Aliás, hoje em dia cultuo com empenho a lentidão, a mastigação, o silêncio, o longamente sexual da pele, o aleatório do olhar. Quem procura acha, mas quem frui e desfruta, descobre. 

 

Com alguma pena minha, creio que se parte demasiadas vezes de antemão já vocacionados para a 'autópsia' da coisa criada, indo no seu encalço em vivaz açulamento e muito raramente nos permitimos estar disponíveis para que ela nos chegue auto-revelada. Mais do que o sentido do relativo ou do subjectivo, revalorizo metodicamente o sentido aberto das coisas. São a única possibilidade de não morrer. A tristeza não ensina nada e também não mata e então que me faz? Revela-me. Uma e outra vez. E se assim é, também a alegria, o Belo e a Arte, a amizade; tudo... E, contudo, não se veja nisto um ataque ao valor constituído da Opinião, mas antes à deficiente modelação das suas instâncias de reconhecimento e de formulação, afluentes do esvaziamento dos seus desejados propósitos.

 

Se calhar estou na fase pós ou pré qualquer coisa, onde ter razão é só mais um dos muitos lugares onde se é só. Prefiro trazer comigo inconcluídos livros, espectáculos, fotografias e tantas outras coisas para que, mais do dizer o que são ou como deveriam ser, eu ser-lhes; isto é: o fazer-me delas. Se elas forem minhas, serei apenas um Eu vestido de coisas; se eu for delas (ou para elas) serei muitos Eus sem nada vestido porque, tal como me disse alguém com quem privei, só sabe despir-se todo aquele que primeiro soube por dentro vestir-se. Ora, e já tanta vez o rei foi nu convencido de que por suas vestes guarnecido que me distancio (assim o saiba fazer) do primado do dedo no ar! É bem melhor receber a visita do que ando a viver; vivendo abertamente o inconclusivo. com isto (me) concluo.

 

 

Luís de Macedo escreve de acordo com a antiga ortografia.

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