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Contentor 9: O corpo do corpo

A possibilidade do corpo deve comportar a capacidade da sua própria transfiguração. Fazê-lo não decorre das limitações que lhe são próprias, mas da negação positiva de fazer da linha do limite o começo de todos os impossíveis. O Homem sempre acalentou o voo; assim o fez Ícaro, e, pese embora tenha falhado, há no fundo do Mar Egeu uma metáfora que subsiste como uma teimosia plausível a quem se propõe como ser asado. Não desista pois então o olhar convocado, daquilo para o qual impele a alma. Só alma é o corpo do corpo. 

Quando Bruno e Daniela o fazem, isto é, quando consumam o acto transfigurado de voar, dão-se em penhor aos deuses pela sua audácia de os imitar. Um corpo nu, que desmente a mentira que, ingratos, habituámos-nos a incutir-lhe. Vê-los aéreos, quanto jazentes, equivale anunciar que todas as interdições são desnudáveis e que por cada uma que caia se opera o sortilégio duma pena se acrescentar ao sonho. E seus corpos, dois-num-só, dão-se-nos de empréstimo, porque o sonho só é sonhável se o sonharmos todos!

A sensualidade é o murmúrio da pele, assim como a água beija o fundo dos rios. O belo, o erótico, a tangente duma intimidade alada, acontece ali mesmo perante nós. Se há por força das coisas o rigor do preparo do corpo, se há mecanismos, cabos, arneses, luzes, adereços e maquilhagem, é, tão-só, para que possamos a ilusão (boa) de nos juntarmos a eles. Um Homem e uma Mulher são sempre o primeiro casal do mundo. São sempre de si (em cada um) para o devir do seu terceiro, esse nós de que se faz o Amor. Não se trata dum Éden contaminado de incongruentes pecados primordiais, mas a proposta dum céu sob o qual todos somos iguais. E o Bruno e a Daniela fazem-nos parte desse amor. Generosos, dão-se a ver, num pudor humilde de quem sabe que carrega lá em cima todos sonhos daqueles que não os podem cá em baixo, mas, ainda assim, voando a inventiva junto a eles.

O impossível não tolhe. Inquieta. Desassossega. Movimento de irmos em busca das asas, essas mesmas que todos temos mas que teimamos em negar! Novos voos desde quarta-feira, dia 16 de Agosto, no Casino Lisboa.

 

Luís de Macedo escreve de acordo com a antiga ortografia

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