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«Sinto-me muito realizada nas tábuas»

SARA TÚBIO COSTA. Tem-se dividido entre o palco e o trabalho como professora e diz que é nos dois que se encontra. Nesta conversa, Sara Túbio Costa, mostra-se ponderada nas palavras e atenta ao que a rodeia. Diz que aprende todos os dias, tanto quanto sonha com o dia em que viverá apenas do trabalho no teatro. 

 

Para começarmos esta conversa, gostava de falar sobre a atividade ao qual estás neste momento dedicada, que é ao ser professora de teatro e expressão dramática.

Sim, neste momento estou 100% dedicada a dar aulas que, no fundo, é o meu ganha-pão. Quando se proporciona fazer espetáculos, muito bem, quando eles não existem, tenho a minha atividade como professora quer em aulas mesmo, quer em oficinas e workshops que tento implementar. 

 

Algo que faz com que tenhas contacto com diferentes faixas etárias.

Sim. Dou aulas de teatro a adolescentes ali entre os 12 e os 16 anos e, por vezes, dou aulas de expressão dramática aos mais pequeninos do primeiro ciclo.

 

E esse é um trabalho que gostas de fazer?

Essa é uma pergunta muito curiosa porque eu quando comecei, depois de tirar o curso de Teatro e de ter percebido que não abundava trabalho na área, tive de me virar para a área do ensino e ia a tremer que nem varas verdes. Achava que não tinha jeito nenhum e que não era nada aquilo que queria. Mas a verdade é que me apaixonei pelo mundo do ensino e aprendi a ter a capacidade de passar mensagens e competências. É muito engraçado ver depois os alunos a corporalizar aquilo que nós lhes passamos como o trabalho da imaginação e da criatividade.

 

Até porque para as idades com que trabalhas é mais essa a função do que o trabalho do texto e do palco puramente, não é?

Isso mesmo. Eu tento trabalhar a expressão corporal aliada à imaginação e à criatividade.

 

É isso que te entusiasma neste trabalho?

Sim, quando consigo aprofundar. Às vezes tenho alunos difíceis de meios mais desfavorecidos com uma estrutura familiar complicada e depois é difícil chegar a eles e abrir-lhes o coração para mexer no armário. Mas depois quando se consegue, para mim, é muito gratificante. Portanto, este trabalho como professora foi uma outra opção que eu descobri e pela qual me apaixonei e não me vejo sem estar a dar aulas. Sinto-me muito realizada nas tábuas, mas consigo ter muito prazer na tarefa de dar aulas. Também me deixa muito realizada.

 

E já trabalhaste alguma vez com alunos mais velhos que tu?

Não, nunca se proporcionou dar aulas a adultos, mas gostava. Agora estou a tentar dinamizar oficinas para séniores. O trabalho com diferentes faixas etárias permite-nos abordar o mesmo tema e ter reações muito diferentes.

 

Passados estes anos ainda olhas com alguma magia para o momento da apresentação final das tuas turmas, por exemplo?

Sim, sim, sem dúvida. Comecei há seis anos a dar aulas e eu costumo dizer que não tenho perfil para encenadora porque fico realmente nervosa quando chega a altura das apresentações deles. Tento não lhes passar isso, mas há ali aquela altura em que falta um adereço e quase que dou por mim a ter os alunos a dizerem-me "professora, falta isto" [risos]. Fico um bocadinho desnorteada, tipo barata-tonta. [risos] O que este trabalho tem de bom é não ser repetitivo. Cada grupo é um grupo e cada criança é uma criança. Todos têm personalidades diferentes e a mesma aula com os mesmos conteúdos programáticos nunca é a mesma nos diferentes grupos. E, para mim, isso tem uma grande magia. Já os vi a fazer tanta coisa e, mesmo assim, conseguem surpreender-me.

 

Entretanto, e abordando o teu percurso como atriz, queria que me contasses como é que foi a experiência que tiveste, entre o final do ano passado e o início deste, de integrar uma produção da Escola de Mulheres.

Foi uma experiência maravilhosa! Fui aluna da Fernanda Lapa no Mestrado em Teatro que fiz na Universidade de Évora e, entretanto, cada uma seguiu o seu caminho. Tenho tentado acompanhar o trabalho da Escola de Mulher ao longo dos anos e, de repente, surge o convite e eu fiquei completamente extasiada. Há dois anos que eu não tinha uma nova produção. Este espetáculo foi uma tragédia, algo que eu nunca tinha feito. Foi muito difícil, muito duro e andei ali uma fase a bater com a cabeça nas paredes. O trabalho de um texto clássico e o trabalho de corpo associado a uma técnica que é o suzuki, foi muito difícil, mas ao mesmo tempo foi um grande desafio para mim enquanto atriz. Esta experiência deu-me também o privilégio e o prazer de ser encenada pela Fernanda Lapa que é uma mulher maravilhosa. Uma mulher que até tenho dificuldade em classificar. E depois, tive a sorte de trabalhar com um grupo muito feliz.

 

E para quem não está sempre no ativo como atriz, acredito que tenha sido uma grande experiência poder participar numa produção da Escola de Mulheres que ao longo dos anos se tem afirmado com espetáculos de grande qualidade.

Sim, sem dúvida. Eu tinha estreado o meu último espetáculo em 2014 e depois continuei a fazer apresentações ao longo dos anos seguintes, mas não tinha um trabalho de criação já há alguns anos.

 

E sentiste responsabilidade por ser com a Fernanda Lapa, que tinha sido tua professora e que já deu para perceber que é uma referência tua?

Senti, senti!  Senti que tinha de estar à altura.

 

Ela foi só encenadora ou também participava no espetáculo?

Foi só encenadora, mas ainda tenho esperança de poder partilhar o palco com ela. Senti-me cheia. Foram três meses em que me senti em plenitude. Realizada a todos os níveis. Foi uma experiência muito gratificante, com grande nível de aprendizagem.

 

Falaste no Mestrado, que foi quando encontraste a Fernanda Lapa, depois de teres feito a Licenciatura. Entretanto tens vindo a fazer várias formações. É importante para ti manteres-te em constante processo formativo?

Eu acho que é muito importante. Quando estamos algum tempo fora do palco, devemos obrigar-nos a fazer alguma reciclagem, porque este é um trabalho essencialmente prático e a memória não se perde, mas perde nitidez. Por isso, temos de reavivar a memória corporal das aprendizagens que fizemos e que ficaram lá atrás. Portanto, quando estou muito tempo sem fazer espetáculos, obrigo-me a fazer reciclagens e workshops para voltar à base, a procurar ferramentas, a aprofundar o que sei e a errar melhor. [risos]

 

Além do teu trabalho como professora e formadora, tens atuado apenas em cima do palco. Televisão e cinema são áreas que gostavas de experimentar?

Gostava, gostava muito. Há pouco tempo fui fazer uma figuração para um filme que há-de estrear lá mais para a frente, que é o filme Ruth, sobre o início da carreira do Eusébio, e foi muito interessante. Apesar de ser só figuração, portanto uma experiência pequenina, deu para perceber que cinema é um mundo completamente diferente do teatro. Ali, naquele momento, a câmara é o público dos atores e é tudo mais pequenino e mais contido. As conversas, as discussões, o tom, os movimentos, o “corta”, o "outra vez"... [risos] No teatro é tudo muito mais imediato. Eu erro e tenho de resolver a situação ali no momento. No cinema ou na televisão, não. Erra-se e pode repetir-se.

 

E gostavas de poder experimentar isso.

Gostava, sim. Até para perceber se tenho o perfil. Uma pessoa que durante muito tempo desenvolve trabalho em teatro e, de repente, tem de chegar ali e ser mais contida, é um desafio. É um contraste. Por isso é que gostava de experimentar. Podem complementar-se mas são trabalhos diferentes, por isso é que gostava de experimentar.

 

Há dez anos que és atriz profissional. Nesta altura, o que é que gostavas que o futuro te trouxesse?

Eu tenho umas ideias que estão em fase de embrião… Queria fazer uma proposta de um monólogo. Estou numa fase em que gostava de dar esse passo.

 

Esse monólogo foi escrito por ti?

Não. Há um texto em particular que me fascina e há algum tempo que ando a maturar esta ideia. Às vezes tenho dúvidas sobre se será a altura certa para o fazer... Acho que é um desafio muito grande. Comecei o meu percurso há dez anos, praticamente, mas como foi um percurso com algumas quebras, acho que às vezes perco a estaleca. [risos] Agora sinto-me com vontade de fazer este monólogo. É uma ideia que é minha e que gostava de a propor em breve. Gosto do texto e gostava que fosse uma determinada pessoa a encenar-me. Vamos ver o que é que o futuro nos traz...

 

Agora que já conheço um bocadinho mais de ti, quero que me digas, realmente, quem és tu, Sara Túbio Costa.

Quem sou eu? Essa pergunta é muito difícil... [pensativa] Quem sou eu, quem sou eu, quem sou eu?... Por isso é que eu digo que não tenho jeito para entrevistas.

 

Também não quero que seja assim tão difícil. [risos] Se tivesses de te apresentar, o que é dirias?

[Longa pausa] Sou uma mulher que ambiciona um dia viver do teatro. Gostava muito. Pode ser um bocadinho utópico, mas é o que gostava mais que acontecesse. Acho que sou uma persistente. O teatro tem-me ajudado a cultivar uma força interior para lutar, para ultrapassar etapas e barreiras e muros. Em criança, eu era extremamente tímida e frágil do ponto de vista da autoestima. Mas o teatro veio ajudar-me a solidificar uma série de coisas. Veio mostrar-me que tenho qualidades, que sou uma pessoa honesta, espontânea, tenho força, vou à luta, sou trabalhadora… Acho que acima de tudo, a Sara é uma mulher honesta e com muita força interior. Às vezes o difícil é passa-la cá para fora. Mas penso que a nossa atitude perante as coisas é muito importante. Acho que sou a Sara empenhada em ser cada vez mais Sara.

 

 

Agradecimentos: Village Underground Lisboa

 

Xavier Pereira escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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