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«O teatro é sempre o primeiro amor»

ANA SARAGOÇA. Nos últimos meses entrou pela casa de muitos portugueses como uma empregada desprezada pela patroa, mas Ana Saragoça é muito mais. Com quase 30 anos de vida artística, mostra-se satisfeita com o trabalho em Ouro Verde (TVI) e confessa que o que realmente quer é continuar a trabalhar enquanto atriz. Além disso é, também, escritora e tradutora.

 

 

Estás na reta final das gravações de Ouro Verde, na TVI. O que é que levas desta experiência?

Para mim, foi muito enriquecedora, porque eu nunca tinha tido um papel tão continuado numa novela. Tinha feito participações esporádicas ou participações especiais. Nesta estive no elenco adicional, mas a personagem foi crescendo ao longo da novela. Eu tinha muito pouca experiencia televisiva continuada, portanto, aprendi imenso. Ao mesmo tempo, tive a sorte de trabalhar com colegas excelentes, nomeadamente a Dina Félix da Costa, e com uma equipa técnica fantástica. Portanto, aprendi imenso e tem sido bastante enriquecedor.

 

Que sentimentos é que ficam neste final de gravações? Sabendo que foi tão especial, mas que está a acabar?

É um bocadinho pensar no que vai ser depois disto. Eu estreei-me profissionalmente há 29 anos. O meu percurso foi feito essencialmente em Teatro. Depois interrompi. Agora retomei. Mas uma coisa que aprendi nesta profissão é que, como dizia a Isabel de Castro, carreiras neste país, só há as dos autocarros. Portanto, nunca sei o que é que vai ser o futuro. Há sempre esta incerteza. Gostava que, deste trabalho, surgissem outros. Adorava continuar a trabalhar como atriz e a fazer mais televisão. Não sei se isso vai acontecer mas, neste momento, o que sinto é um bocadinho de nostalgia, embora esteja também cansada. Tem sido bastante intenso. Sinto esse bocadinho de nostalgia porque vai acabar aquele frissom das câmaras e da equipa técnica e dos colegas.

 

Falaste de que começaste no teatro e que foi lá que permaneceste vários anos. Mas há uns quantos que não sobes a um palco. Foi uma opção ou um acaso?

Não foi por opção. Foi porque deixou de haver trabalho para mim como atriz. Eu, ao fim de dez anos de carreira no teatro, em que havia muito e se podia viver bem do teatro… Ali entre a década de 80 e 90... Naquela altura decidi parar e ter um filho, aos 32 anos. E foi nessa altura que se deu o boom das televisões e das novelas portuguesas. E aquela primeira fase foi feita, essencialmente, com manequins e, quando eu voltei, de repente, com 30 e poucos anos, era muito nova para fazer de velha e muito velha para fazer de nova. Por outro lado, não sou excecionalmente bonita, não sou manequim e era muito comum. Cabelo castanho, olhos castanhos, um metro e sessenta. Normal. E Portugal é muito limitado nesse aspeto. Enquanto nós vemos noutros países atores e atrizes de todas as idades a fazer televisão, Portugal ainda continua a fazer muito o culto da juventude. Temos pessoas de 40 e tal anos a fazer de pais de pessoas de 20 e tal. É estranho. Portanto, eu perdi um bocadinho o comboio da televisão. E a televisão fez com que o teatro perdesse um bocadinho de público. A partir daí, era uma questão de sobrevivência. Eu como trabalhava como tradutora, acabei por me dedicar mais a isso do que ao teatro, por uma questão de sobrevivência. Além de mim, também tinha um filho para sustentar. E foi assim. Fui fazendo participações especiais em séries, papelinhos pequenos. Nunca deixei de representar. A representação só deixou foi de ser a minha atividade principal.

 

E tens saudades de fazer teatro?

Muitas, muitas, muitas.

 

Há muitos anos que não fazes teatro?

Sim, desde 2003. Mas agora estou a pensar voltar e já há projetos nesse sentido.

 

E estás entusiasmada?

Muito! Agora estou entusiasmada com tudo. Acho que o Ouro Verde me deu uma nova vida e uma nova esperança para tudo. Nós, os atores, somos muito inseguros. Todos os atores são inseguros e, de repente, o Ouro Verde deu-me uma nova segurança. Uma nova coragem para voltar a tentar fazer tudo. Deu-me uma nova confiança em mim própria e estou cheia de projetos.

 

E teatro era uma coisa que gostavas que acontecesse.

Sim. Tenho muitas saudades. O teatro é sempre o primeiro amor de quem começou por fazer teatro. Eu também já escrevi peças e por isso acho que vou pegar num texto meu que escrevi para uma outra atriz, mas desta vez vou fazê-lo eu. Estou a trabalhar sobre isso com a Buzico!

 

No teu percurso, já com quase 30 anos, tiveste oportunidade de fazer algo que, hoje em dia, não se faz e que é fazer ficção em rádio. Fala-me sobre isso.

É maravilhoso. Era um estúdio muito engraçado. Tinha tudo lá dentro. Tinha portas, tinha fechaduras, tinha uma estradinha de gravilha... Andávamos lá dentro e parecíamos uns garotos a brincar. Havia tinas com água... Tudo isso para fazer os efeitos sonoros. Fizemos várias grandes obras com a realizadora Margarida Lisboa, irmã da atriz Elisa Lisboa e fizemos várias obras de teatro radiofónico.

 

Isso é muito giro e para os mais jovens é algo muito distante. Vocês podiam ir de fato de treino para o trabalho porque ali a única coisa que importava era a vossa voz e os sons.

Isso mesmo! Pensar sobre isso trouxe-me agora à memória a história do meu primeiro trabalho, que tem piada porque foi o Feiticeiro de Oz e eu consegui-o porque sei ladrar! [risos] A partir daí fiz muitas outras obras. Mas no teatro radiofónico, sim, era muito giro… Fazíamos pronúncias.

 

Estiveste a representar à frente de câmaras. Havia maquilhagem e penteados e guarda-roupa… No teatro radiofónico isso não era, de todo uma preocupação.

Sim, exatamente. É fascinante.

 

Entretanto, se te dessem oportunidade de fazeres só o que te apetecesse, o que é que escolhias fazer?

Eu quero representar. Aprendi há muito tempo que se só fizermos o que nos apetece, corremos o risco de perder oportunidades fantásticas na vida. Às vezes há coisas que não nos apetece muito fazer que depois, quando as fazemos, descobrimos que são coisas extraordinárias que nos podiam ter passado ao lado se nós não as quiséssemos fazer.

 

 

Já aconteceu contigo?

Sim, já. Ou até trabalhar com pessoas com que antipatizávamos, mas depois quando trabalhamos com elas são pessoas fantásticas. O que eu quero mesmo, mesmo é não ficar parada e continuar a trabalhar como atriz. Tal como quero continuar a escrever. Já publiquei dois livros e quero continuar.

 

Fiz esta pergunta porque há pouco disseste que tinhas saudades de fazer teatro…

Sim, tenho saudades, mas o que eu vou fazer é o que eu vou fazer acontecer. Eu acabo de gravar a novela esta semana e o que posso garantir é que, aconteça o que acontecer, não vou ficar parada à espera de um convite. Se não surgir nada, vou pegar numa peça que tenho escrita, vou propô-la, vou procurar um encenador e vou fazê-la, e tentar vender espetáculos, e fazer-me à vida. Se surgir algum convite, fantástico, vou aproveitá-lo! É esse o meu projeto de vida. Por duas razões. Primeira: preciso de trabalhar por questões financeiras. Segunda: sou uma pessoa proactiva. Foi por essa razão que me dediquei às traduções ou que aceitei vários trabalhos. Acho que não há conhecimento inútil, acho que, se me convidarem para fazer uma locução, mesmo que eu nunca tenha feito nenhuma locução, sei que vou decidir fazê-la. Vou precisar que me ensinem, mas eu sei que vou aprender. É uma experiência nova…

 

Estás disponível para o que surgir.

Exato, isso mesmo.

 

Isso já diz um pouco sobre quem és tu, mas a minha última pergunta nesta série de entrevistas tem sido sempre a mesma. Por isso, cá vai: Ana Saragoça, quem és tu?

Às vezes as pessoas podem achar que eu sou um bocadinho inconsistente porque tenho tantos interesses. Podem achar sou um bocadinho diletante. Porque sou atriz e depois também sou escritora e tradutora… E eu gosto dessas três coisas. Às vezes vou a uma repartição de finanças e perguntam-me a profissão e eu fico um bocadinho hesitante. Fico sem saber o que responder. Normalmente respondo o que estou a fazer na altura. Se estou a traduzir, digo que sou tradutora. Se estiver a representar, digo que sou atriz. E nenhuma delas é mentira. [risos] Mas é isso que sinto um bocado. Sou uma pessoa muito curiosa. Sou alguém que gosta muito, muito, muito de aprender. Sinto que estou sempre a aprender com tudo e com todas as pessoas com que me cruzo na vida. Gosto muito de pessoas e gosto muito de conviver. Também gosto muito de observar. Adoro observar as pessoas, adoro ir nos transportes a observar tudo. Sempre adorei! Acho que todas as pessoas têm algo importante a dizer. Como disse antes: não há conhecimento inútil. Isso é um dos meus lemas de vida. O outro é “o carácter é o destino” que é uma citação Heráclito de Éfeso, um filósofo grego. Acho mesmo que é assim, que é o carácter que é o destino da pessoa. Não há destinos escritos, a própria pessoa é que faz o seu. 

 

Agradecimentos: Village Underground Lisboa

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

 

 

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