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«O teatro é a minha praia»

NELSON CABRAL. A maior parte do tempo, nos últimos anos, passou-o nos Açores, de onde é natural. Agora, diz que está preparado para voltar ao continente e traz consigo muita vontade de fazer televisão, cinema e mais teatro. Aos 44 anos confessa que não gosta de perguntas difíceis e que tudo o que espera é aprender com quem ainda não se cruzou na sua vida. 

 

 

Estás neste momento a preparar a reposição d'A Passagem das Horas. Como é que está a correr?

Está a correr bem. Será mais para o final do ano.

 

É um espetáculo que já fizeste antes.

Já o estreei há dois anos... Foi em junho de 2015 e tenho-o apresentado em várias ilhas dos Açores e agora pretendo fazer uma digressão pelo país com este espetáculo.

 

É um monólogo?

Sim. É uma Ode de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa. Foi um espetáculo que partiu da necessidade de ter um património acoplado a mim em que pudesse, com alguma rapidez, ter na carta para apresentar. Não só em Portugal, mas também com o objetivo de, no próximo ano, ir a outros países de língua portuguesa como Brasil, Macau, países africanos... O mundo português.

 

E, para quem não conhece essa Ode, como é que a descreverias?

O que fiz foi pegar numa Ode de Álvaro de Campos que é das menos conhecidas e focadas. É uma Ode do período sensasionista do Fernando Pessoa em se fala e se reflete muito sobre as sensações, sobre aquilo que o ser humano almeja, aquilo que passa para ter uma condição de vida nesta esfera global que não pára. Fernando Pessoa, através do heterónimo Álvaro de Campos, reflete muito sobre a condição humana. É um dos textos mais tresloucados de Fernando Pessoa.

 

Foi isso tudo que te fez pegar nele?

Sim, também. É um texto que reflete sobre a sexualidade, sobre os negócios e a insensibilidade do mundo que nos rodeia. E isso fez com que me identificasse muito com o texto.

 

Além do trabalho de pré-produção dessa digressão, o que é que estás a fazer mais?

Acabei agora uma participação em Ouro Verde, na TVI. Entretanto, continuo a gravar uma série do Zeca Medeiros para a RTP. O Zeca é um realizador açoriano e está a rodar uma série de cinco episódios que já começámos gravar no ano passado e que acaba em breve.

 

Está a correr bem?

Sim, está a correr bem. Tem piada, faço de encenador e ator de teatro. Se calhar há de lá aparecer um alter-ego meu. Chama-se Henrique Madruga e é, em termos de audiovisual, a personagem que estou a fazer agora. Depois, estou a criar um espetáculo de poetas com um compositor açoriano chamado Cristóvão Ferreira. Estamos no início, ainda. Já temos cinco minutos de espetáculo que apresentámos o mês passado numa homenagem a Natália Correia, no Teatro Micaelense e estamos a começar a criar o espetáculo de forma gradual, até porque o tempo não permite que estejamos muitas vezes juntos.

 

Como é que correu a participação em Ouro Verde?

Corre bem, correu bem. Já não fazia televisão há algum tempo...

 

Mas já fizeste muita.

Sim, já fiz muita entre 1999 e 2003. Ainda participei em muita coisa. Agora, na novela Ouro Verde, gostei muito da personagem. Tinha imenso sentido de humor. Era um mau daqueles homens que nós estamos habituados a associar ao pessoal que gravita à volta dos clubes de futebol, das apostas, do jogo ilegal... E era uma personagem com tanto sentido de humor que dizia as piores coisas com um sorriso e com muita ironia. Isso agradou-me bastante. Ajudou a que pegasse na personagem. Era pequenina, mas a mim deixou-me muito agradado.

 

Os Açores têm sido o teu palco nos últimos anos mas formaste-te no Porto e, no início do teu percurso, trabalhaste em muitos palcos lisboetas... Encontraste-te como ator num palco, não importa a cidade?

Sim, sim. Eu sou açoriano e aquela terra é-me muito grata por todas as razões. O meu regresso aos Açores, há uns dez anos, teve muito a ver com questões familiares. Neste momento, essas questões já não se põem tanto e, por isso, sinto-me mais liberto para não estar tanto nos Açores. Portanto, encaro o futuro com vários palcos, em vários lados, incluindo aquele arquipélago porque sei que criei muitas sinergias lá.  Fundei uma Associação Cultural lá, que é a Despe-te-que-Suas e que tem um trabalho regular e que me faz estar lá durante algum tempo. Mas quero muito voltar a entrar numa dinâmica de teatro, televisão e cinema que há já algum tempo que estou um bocado afastado.

 

Ator, encenador, autor, diretor artístico, produtor, formador... esqueci-me de alguma função que costumes desempenhar?

O que menos me considero é autor porque é o que menos tenho experimentado... Na verdade, não me considero autor. Gosto de aproveitar os textos e as propriedades dos outros para torná-las minhas e, com a minha opinião cénica, artística, dramatúrgica, os tornar diferentes. Isto é o que qualquer artista das artes do espetáculo faz. Quanto a ser produtor, isso tem muito a ver com a necessidade que as minhas coisas sejam feitas. Nos Açores, por exemplo, se não fosse eu a produzir, mais de metade do que eu fiz, não teria acontecido. Mas... odeio produzir! [risos].

 

Assumes isso assim sem rodeios?

Assumo, assumo. [risos] Acho até que sou um péssimo produtor. Sou produtor porque tem de ser, por força das circunstâncias. O que mais prazer me dá é ser ator e encenador. Já realizei um filme chamado Cortejar a Ilha, também nos Açores, mas nem por isso me considero realizador. Tenho um grande respeito por realizadores e pelo seu trabalho. Aquilo foi uma experiência que tive e que me deu bastante gozo.

 

Correu bem?

Correu bem. Estendeu-se muito no tempo, porque não tínhamos grandes condições para o fazer. Demorámos três anos para concluir o filme e isso, para mim, é muito tempo. Eu gosto que os trabalhos tenham um prazo mais curto. Mas, de todos os papéis que enumeraste, o de ator é o que mais me preenche e o que mais prazer me dá.

 

E onde é que esperas que esse trabalho de ator ainda te leve?

Olha, isso é uma pergunta que não te consigo responder assim de repente... Espero que me leve, pelo menos, às cabeças e às consciências do público que tem assistido e que há de continuar a assistir às coisas que eu faço. Se alguns dos meus trabalhos perdurarem na memória e modificarem alguma coisa, por mais pequena que seja, na vida de algumas pessoas, isso já me deixa muito realizado. É para isso que um ator trabalha, para que saiba que vive na memória das outras pessoas.

 

E para continuares a fazer esse trabalho, o que é que está planeado para os próximos meses?

Eu não sei. Tenho as gravações da série do Zeca, tenho os ensaios sempre que for aos Açores e continuo a acompanhar o trabalho de pré-produção d'A Passagem das Horas. Tenho alguém que está a fazer a produção, mas eu acompanho todo o trabalho, uma vez que estamos a tentar criar um roteiro que passe por todo o país com aquela peça.

 

 

No teu percurso já desempenhaste várias funções, já fizeste muitos projetos em televisão, cinema e teatro, muitas personagens... Onde é que, verdadeiramente, te encontras? Há alguma área que te complete mais?

As linguagens são todas muito diferentes e preenchem-me de formas diferentes na minha existência. Se eu pudesse, todos os dias, fazer teatro; se eu pudesse, todos os dias, fazer televisão; se eu pudesse, todos os dias, fazer cinema... seria muito feliz. [risos]

 

Esta pergunta que te fiz tem que ver com o facto de, por vezes, alguns atores conseguirem dizer que o que os faz mesmo vibrar é o teatro, ou a televisão, ou o cinema. Mas depois também há muitos que vibram com as três áreas.

Sim. O teatro é a minha praia, eu era incapaz de estar muito tempo sem fazer teatro. Já fui capaz de estar muito tempo sem fazer televisão, por exemplo. Mas não teatro. No entanto, o meu desejo era, de facto, ter todos os dias trabalho nas três áreas. Porque gosto de todas.

 

Posto isto, quem és tu, Nelson Cabral?

Ui... Sou um jovem de 44 anos... [longa pausa] Essa pergunta é difícil! Sou alguém que sente que já passou por muitas coisas. Algumas provações que a vida me fez questão de mostrar e de fazer com que eu passasse por elas, mas tenho a consciência que ainda há muito por vir. Ainda tenho muito por descobrir e por passar. Durante mais quanto tempo, não sei, isso é a incógnita que a vida já me tem mostrado bem. Nós nunca sabemos quando e quanto [tempo] cá havemos de estar. Mas eu estou muito preparado e muito disponível para passar cá muito mais tempo e para aprender muito mais com as pessoas que ainda não se cruzaram no meu caminho.

 

Obrigado.

Epá, desculpa lá... fazes perguntas muito difíceis!... [risos]

 

 

Agradecimentos: Village Underground Lisboa

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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