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«Quero fazer teatro para despertar o indivíduo»

 

JOANA DECARVALHO.Consciente do que a rodeia e pronta para qualquer desafio, foi essa a Joana que encontrámos. De sorriso fácil e com as mãos sempre a gesticular, confessa que o difícil, para ela, é estar quieta. Assume-se como uma viajante do mundo e que todos os dias aprende a lidar com o tempo das coisas num país como Portugal.

 

 

Acabaste de ter a experiência de, de repente, te chamarem para integrar um espetáculo que está há alguns meses em cena. Como é que foi?

Foi uma grande responsabilidade por tudo. Pela equipa, pela sala, pelo projeto e pela antecedência com que foi feito o convite.

 

Qual é que foi a antecedência?

Dois dias. (risos)

 

E como é que foi?

A primeira sensação é boa: "ufa, vou trabalhar, que bom!". Depois, quando se recebe o texto e se pensa que só há dois dias para fazer aquilo a sensação já é: "és maluca, não devias ter aceite!".

 

Porquê?

Sobretudo porque posso comprometer o trabalho dos colegas, mas também o meu, porque seria eu que ali estaria. Mas pronto, o convite já estava aceite. Foi um misto de sensações entre a ansiedade, o medo e o compromisso. E dei o meu melhor.

 

Correu bem?

Sim, correu. Não comprometi o trabalho dos meus colegas que era um receio meu. O maior desafio era a parte da coreografia, porque não sou bailarina. Apesar de já ter feito muitos musicais, não me consigo ver de fora e não consigo perceber se a estou a fazer bem... Mas correu bem.

 

Disseste que já fizeste muitos musicais, sei que sobretudo, foram projetos de teatro infantil. É um registo onde gostas de trabalhar?

Gosto. Durante uma fase da minha vida foi bastante importante, aprendi muito. Mas depois comecei a ficar muito marcada com aquele registo... E, para uma atriz, isso é difícil. Mas as pessoas já se estão a aperceber que não posso fazer sempre a menina da história. Há um tempo fui chamada para uma produção do Canal Panda e já fiz a bruxa, não fiz a menina da história. Foi a primeira vez que percebi que a fase de menina estava a passar, a acabar. Já passaram mais de 10 anos desde que comecei a fazer sempre as meninas da história. E isto é bom e mau. Por um lado, é um bocadinho doloroso, porque é um registo que conheço e que gosto. Por outro, pode ser bom, porque me permite começar a ir por outros caminhos, por outros registos. Mas pronto... Foi uma área onde fui muito feliz e onde cresci. Neste momento estou a perceber que tenho de passar a pasta e, se integrar um projeto nesse registo, já poderei ser a mãe e não a menina...

 

Já fizeste vários musicais infantis. Gostas de trabalhar para os mais novos?

Gosto, mas é um registo do qual me queria começar a distanciar. Fi-lo durante muitos anos.

 

E ao longo desses anos, além de musicais infantis, também emprestaste a tua voz a outros projetos. Como é que foi?

Fiz menos do que gostaria. Adorava fazer mais dobragens, mas é uma área um bocadinho fechada... Já fui a voz do protagonista de uma série em português de Portugal e em português do Brasil e esse foi o meu maior trabalho no que toca a dobragens, mas é algo que eu queria muito, muito voltar a fazer.

 

Também participaste em algumas gravações de CD's.

Sim e, neste momento, há um novo projeto nessa área, ainda muito embrionário, mas que voltará a colocar-me num estúdio a cantar músicas infantis. Depois talvez se transforme aquilo num espetáculo para crianças e se grave um DVD, mas está tudo ainda muito no segredo dos deuses. É um trabalho de que gosto, mas percebo que tenho as minhas limitações e hoje em dia há muito talento, muitas colegas que vêm do canto, que têm grandes vozes, e que depois começam a fazer musicais e a estudar representação e tornam-se boas naquele registo.

 

Entretanto, os últimos tempos têm sido mais de pausa. Como é que foi passar por esse período?

Foram os últimos dois anos. Fui-me embora de Portugal e fui para o Brasil. Fui à procura de algo diferente, porque Portugal estava naquele período muito fechado e em que tudo era negativo, toda a gente se queixava. Eu não estava com falta de trabalho, mas comecei a não me sentir bem aqui. Fui embora à procura de algo que não sabia o que era. E foi lá que conheci o meu atual marido e que tive o meu filho. Trabalhei numa companhia de teatro onde fiz um trabalho completamente diferente. Pegámos em textos não dramatúrgicos e transformámo-los em textos dramáticos. Na altura era um projeto sobre uma figura história portuguesa e foi um processo muito específico, com muitas particularidades e muito bom. Depois foi com esse espetáculo que acabei por regressar a Portugal, para uma digressão por algumas salas do país e depois acabei por ficar por cá. O Rio de Janeiro estava a passar por uma fase bastante atribulada, por isso, e uma vez que já tinha um filho, acabei por decidir ficar por cá. O meu marido veio ter connosco e ficámos por cá desde então.

 

 

E agora, como tem sido este recomeço?

Tem sido difícil. Hoje em dia tenho noção que, se saímos, vêm 50 pessoas dispostas a ocupar o teu lugar e, num país pequeno como o nosso, isso é difícil. E perde-se o trabalho, mas também se perdem alguns relacionamentos. É difícil. As pessoas seguiram o seu caminho, os projetos seguiram o seu caminho e eu deixei de fazer parte e para muitos, não é por agora estar de regresso, que posso voltar a fazer parte. E isso tem sido aquilo com que me tenho deparado.

 

E tendo em conta essas dificuldades, como é que tem sido?

Tem sido complicado. Incomoda-me ter de andar a contar tostões, mas o que mais me incomoda é sentir que perdi amigos.

 

E o que é que aí vem, depois disto?

Eu não sei o que é que aí vem, mas sou viciada nisso. Faz parte da vida não saber o que vem depois, mas ao mesmo tempo também causa alguma angustia. Mas, na verdade, no dia em que eu souber o que é que vem a seguir, acho que perco o interesse.

 

Mas sem saber o que aí vem, o que é que gostarias que acontecesse?

Eu gostava muito de fazer cinema. Este ano é essa a minha meta. Não sei se vai acontecer, mas é isso o que eu mais gostava. Depois, gostava de fazer algo que, no fundo, simboliza um sonho que eu tenho há muitos anos, que é usar o teatro como forma de intervenção. Gostava de pegar em histórias de pessoas e usar o teatro para ajudar a resolver alguns problemas por que pudessem estar a passar, ou a iluminar alguns caminhos, ou a colocar as coisas em perspetiva.  É isso que eu queria fazer. Queria fazer teatro para despertar o indivíduo mais do que apenas entretê-lo. Mas aqui é tudo muito difícil e, se calhar, por isso é que já estou com vontade de me ir embora outra vez para um sítio qualquer.

 

Enquanto isso não acontece, fala-nos das experiências que tiveste em televisão.

Foram experiências ótimas, apesar de ser um mundo complicado, mas adorava fazer mais televisão. Adorava ter essa oportunidade, mas sei que é complicado, porque há muita coisa à volta e, num país tão pequenino, se torna difícil. A experiência que tive de maior dimensão era para ter sido uma coisa pontual, mas foi crescendo. Depois contracenei com a Maria João Luís e isso fez com ela me chamasse para integrar o primeiro projeto do Teatro da Terra e foi muito bom.

 

E a passagem pelo Teatro Nacional Dona Maria II?

Foi muito bom, mas eu era muito nova quando fiquei selecionada. Fiz alguns projetos muito bons. Mas depois as mudanças de direção, ditaram a saída de toda a estrutura onde eu me integrava.

 

E depois deste percurso, quem és tu?

Sou uma insatisfeita, sou uma apaixonada pelo mundo. Quero muito conhecer mais e chegar a mais gente. Sinto que se não experimentarmos e não errarmos, não aprendemos.

 

E lidas bem com tudo o que já passou, é isso?

Sim, lido. Só não possa é estar sentada e parada muito tempo.

 

Ok, eu percebi a deixa.

Ah, não!... (risos) Não tinha nada a ver!... (risos)

 

Agradecimentos: Village Underground Lisboa

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

 

 

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