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«Sinto-me um privilegiado»

 

ZÉ PEDRO RAMOS. É designer de formação, trabalha como animador e formador, mas é como ator que se define. Tem 37 anos e assume que gosta de acordar cedo. Com um percurso feito, sobretudo, em teatro, já integrou projetos em cinema, televisão e publicidade. O suficiente para dizer que sente que tem muita sorte.

 

 

Apresentas-te como ator, animador e formador. O que é que estás a fazer, hoje em dia?

Estou a fazer um pouco das três. Como ator, faço teatro em vários locais... Um deles é o Teatro Bocage. Outro é o Mosteiro dos Jerónimos onde tenho uma peça com a Foco Lunar. Depois acabei de sair do Teatro Independente de Oeiras com uma peça que esteve esgotada durante toda a temporada. Além disso, nos últimos meses tenho um projeto pessoal de palhaço, que é um trabalho de ator, uma vez que aquilo é uma personagem, mas que acabo por utilizar como animador. Neste momento esse projeto apoderou-se um bocadinho de mim e é o que me está a dar mais gozo fazer. Este palhaço não vem de uma formação de artes circenses, vem de uma formação como ator, ou seja, conta uma história, tem um princípio, meio e fim.

 

Por onde é que tens andado com o teu palhaço?

Tenho feito em eventos vários. Lá está, apesar de o considerar teatro, uso-o como animador. Já no meu trabalho como formador acabo por ser também um bocadinho animador e cruzo as duas áreas. Uma coisa que faço muito são workshops nos períodos de férias escolares. Na Páscoa, no Natal, no verão. Quando os miúdos estão de férias, vão para o teatro e acabam por ter ali um mini curso de teatro durante a semana que normalmente acaba com um espetáculo que apresentam ao público. Nesses cursos acabo sempre por ser um monitor-formador de teatro. Depois também dei durante muitos anos cursos de teatro e expressão dramática e também de animação sociocultural. É algo que já não faço há algum tempo. Já estive muito ligado à formação, agora vou estando menos e já tenho saudades. Depois, além de tudo isto, também trabalho como designer que é a minha formação académica e acaba por ser uma das minhas atividades profissionais, de vez em quando.

 

Não há nenhuma que destaques?

A que eu me dedico mais é como ator, mas como fonte de rendimento, todas são importantes.

 

Esse trabalho como ator tem acontecido, sobretudo, em teatro. No teu percurso já trabalhaste com várias companhias, com várias produtoras, em vários teatros... Como é que passar por tanto lado, algumas vezes em simultâneo?

Não é fácil. É uma ginástica muito grande, porque tem de ser feita uma gestão em termos geográficos das pessoas e dos projetos. Mas depois também temos de gerir horários e agendas.

 

Isso porque consegues estar a fazer um trabalho para escolas com uma companhia, um espetáculo para adultos com outro grupo, entre outros projetos...

Não sou um ator do sucesso mediático que, normalmente, corresponde a sucesso financeiro. E aqui estou a falar de quem faz televisão e cinema com muita frequência. Eu não sou esse tipo de ator e, sinceramente, não sei se quero ser. Em termos de percurso de carreira não me atrai esse sucesso mediático. O que eu me considero é uma pessoa de sorte. Os projetos que tenho feito têm-me possibilitado sobreviver e sustentar a minha família. São projetos que me possibilitam também ir evoluindo, mas com alguma ginástica. Já trabalho há uns anos valentes e só há algum tempo é que estou a começar a ter tranquilidade para viver o dia-a-dia sem saber se, daqui a dois ou três meses, me vai aparecer alguma coisa. Como tem aparecido sempre, eu quero acreditar que sim, que vai aparecer e por isso é que já vivo com mais tranquilidade nesse campo. Vivia com muita ansiedade. Quando acabava um projeto, já tinha de ter outro na manga.

 

Este trabalho com várias companhias tem-te permitido não ter grandes momentos de pausa, é isso?

Sim, exatamente. Quando eu penso que vou ter um período de pausa forçada acaba por aparecer um convite para algum projeto. Ainda em fevereiro pensei que ia ter um desses períodos de desemprego a que chamo de férias forçadas e acabei por ser convidado para encenar um espetáculo no Teatro Bocage durante todo o mês. Apareceu de repente e é um bocadinho o que tem acontecido.

 

Além do teu trabalho em teatro, também já passaste por alguns projetos em televisão. A última participação foi em Ouro Verde, para a TVI. Gostas do trabalho em televisão?

Gosto, são participações giras. Gosto de ir experimentando coisas que estão dentro da minha área mas que não estão na minha linha de ação. E é isso que as novelas são para mim. Não sei se teria perfil para integrar um elenco fixo de uma novela. O que noto é que as participações que tenho feito têm-me dado muito gozo e têm resultado. Resultam como produto e resultam em termos pessoais. Eu revejo-me no que tenho feito e isso é bom. Foram sempre papéis de pequena dimensão. Eu gosto muito do potencial humano que há em televisão e em cinema. São áreas que envolvem sempre equipas muito maiores e com grande exigência em termos técnicos. Podemos repetir a cena, mas não podemos ensaiar durante um mês, como no teatro. A primeira vez que fiz cinema fiquei muito impressionado porque gravámos um cena em que era só eu e um colega, mas depois existia uma equipa de quase 60 pessoas a olhar para nós e todos com a sua tarefa. E essa máquina é impressionante. Quando vemos uma imagem, pode estar só um ator, mas as pessoas não imaginam a quantidade de gente que está ali atrás. E isso é muito giro e atrai-me bastante. Acho que a minha formação em design me faz ter mais alguma atenção para a imagem. A fotografia, a qualidade da imagem, o desenho de luz... Tudo isso são aspetos que me atraem muito e por isso é que digo que me sinto um privilegiado.

 

Se te perguntassem o que gostavas de fazer mais, o que dirias?

Se a escolha tiver em conta apenas o critério do que me dá mais gozo, teria sempre de escolher o teatro. Porque o teatro tem o público ali. No cinema e na televisão não temos o público à frente que é o que tornam o teatro tão especial. Talvez seja por isso que eu continue a fazer e a gostar de fazer teatro para a infância. Nesses espetáculos as reações são ainda mais verdadeiras, mas evidentes.

 

Costumas fazer muito teatro para a infância?

Faço. Tenho uma peça no Mosteiro dos Jerónimos, mas vou fazendo outras. São espetáculos que aparecem mais durante o dia e então dão para conciliar. Faço-os com muito gosto porque eu considero que o teatro para a infância é uma grande responsabilidade. Acho até que devia existir uma inspeção ao teatro que é feito para as crianças. Porque nos queixamos que não há público para ir ao teatro e culpamos a televisão, o cinema e as novas tecnologias, mas a verdade é que há muitos adultos que não vão ao teatro porque tiveram uma má experiência, principalmente na infância. Viram coisas que não gostaram e que os marcaram para sempre. Posto isto, quem acha que o teatro para a infância é algo diferente ou de menor responsabilidade, engana-se. As diferenças que existem entre o teatro para a infância e o teatro para adultos não são assim tantas.

 

Há alguns atores que fazem teatro para a infância e que se queixam do facto de terem de se levantar muito cedo. Tu não tens esse problema...

Eu digo que gosto de acordar cedo, não quer dizer que consiga!... (risos) Mas é verdade, eu gosto. O meu problema é que gosto de me levantar cedo, mas também gosto de me deitar tarde. Aí é que está o problema. Custa-me o tempo que se perde a dormir. Gosto de dormir, mas não gosto do tempo que é preciso. Adoro acordar e não haver trânsito, e ver o nascer do sol, e ouvir os pássaros... Adoro. Trabalhar de manhã não me afeta nada. Pelo contrário, chateia-me mais trabalhar só à noite. Porque quando o trabalho que fiz de manhã não me satisfez ou não rendeu o que devia, sei que ainda tenho o resto do dia para fazer alguma coisa bem feita. Quando só tenho espetáculo ou ensaio à noite, as hipóteses são mais reduzidas. E se correr mal, não há como fazer com que aquele dia melhore. É um dia desperdiçado e isso custa-me.

 

 

Apesar de dizeres que hoje em dia já lidas melhor com a imprevisibilidade da vida de ator, pergunto-te o que é que tens planeado para os próximos meses.

Tenho várias marcações do meu palhaço e algumas delas vão exigir uma adaptação do texto e isso é bom, eu gosto muito disso. Depois estou a ser solicitado como ator para alguns festivais de teatro de verão. Depois vamos começar a trabalhar com um novo espetáculo da Output Teatral de Lisboa para o Teatro Independente de Oeiras. É a continuação da saga dos Culpados desta coisa toda. A primeira versão foi sobre o Dom Afonso Henriques. Agora estamos a preparar um novo episódio com outro culpado. Os ensaios devem começar no verão e o espetáculo vai estrear lá para janeiro do próximo ano.

 

Ainda falta um bocadinho.

Esta antecedência é o que nos faz trabalhar tranquilamente porque nos permite saber que temos trabalho.

 

Também tens feito alguma publicidade.

Sim. Tenho feito alguns anúncios e algo que gosto também por essa questão da máquina que é necessária para fazer um anúncio. Mas posso dizer que o primeiro anúncio que fiz foi em 2009 e rendeu-me milhares de euros. Hoje em dia já não é assim tão rentável e não nos podemos esquecer que a nossa imagem fica associada a uma marca durante muito tempo, o que também pode acabar por nos fechar algumas portas.

 

Face a tua isto e às muitas áreas onde atuas, diz-nos, quem é o Zé Pedro Ramos?

Olhando para o passado, diria que sou uma pessoa que se adapta bem às circunstâncias, aos projetos, às pessoas. Já tive situações em que vivi com pouco dinheiro e não desesperei. Já tive situações em que tive mais dinheiro e não abusei. Sou uma pessoa que gosta do lado humano de qualquer projeto, seja ele em que área for. As pessoas são o que mais me atraem aos projetos. E isso é assim sempre. Em viagens também. Já aceitei projetos em que quase pagava para trabalhar porque, em termos humanos, me fazia bem e me fazia crescer. Se calhar não procurei trabalhos noutras áreas que se calhar eram mais rentáveis mas, em termos humanos, não me identificava. Se me perguntares por sonhos e projetos, eu tenho que dizer que, devido ao meu percurso, vou querer regressar a Viseu, de onde sou natural, e era lá que gostava de implementar um projeto que englobe tudo o que fiz até hoje, mas num espaço rural... Mas para já vou vivendo as oportunidades que existem e acreditar que vou continuar a ter a sorte que tive até aqui. 

 

 

Agradecimentos: Village Underground Lisboa

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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