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«Gostava muito que se lembrassem que fiz alguma coisa bem feita»

FLÁVIO GIL. Gosta do que faz, mas não sabe o que quer fazer para o resto da vida. É ator, autor e encenador. Tem 26 anos e uma letra que escreveu acaba de ser distinguida como a Grande Marcha de Lisboa 2017. Flávio Gil tem dificuldade em definir-se e não gosta de dar entrevistas, mas nós garantimos que aqui está uma que vale muito a pena ler.

 

Uma marcha com letra escrita por ti acaba de ser distinguida como Grande Marcha de Lisboa 2017. Como é que reagiste a esse prémio?

Foi muito bom. O Calos Dionísio convidou-me para escrever uma letra para concorrermos e foi isso que aconteceu, sem grande expectativa. Mas depois ficámos muito felizes, claro. Para mim foi muito importante, porque eu gosto muito de Lisboa e das Festas de Lisboa e, portanto, estar tão presente e de forma tão evidente nessa noite é algo que me deixa a transbordar de alegria.

 

Esta marcha vai, assim, ser cantada quer no MEO Arena, quer na Avenida da Liberdade, por todos os marchantes dos vários bairros de Lisboa. Como é que é pensar nesse momento?

Não sei bem. A primeira vez que desci a Avenida como padrinho já foi especial. Eu gosto muito de Lisboa e das marchas. Vou voltar a ser padrinho da marcha do Bairro Alto, pela terceira vez, e com essas experiências já senti sempre algo muito bom. Agora, isto é outro nível. Não sei muito bem explicar, só quando lá chegar é que vou perceber o impacto disto... Ainda é muito recente.

 

Escreveste esta marcha e recebeste este prémio, mas isto não é inédito, porque já tens outras marchas no currículo. É algo que gostas de fazer?

Eu gosto de escrever e, quando escrevo uma marcha, junto esse gosto ao facto de ser fã das Festas de Lisboa. Já tinha escrito para vários bairros.

 

Como é que é o trabalho de escrever uma Marcha?

O bairro que nos convida, normalmente, já definiu o tema que quer levar e depois é construir algo, indo ao encontro do tema, seja ele qual for. E, com esse trabalho, tentar que tudo faça sentido. Ou seja, relacionar o tema com a história do próprio bairro, fazendo isso com uma linguagem mais popular porque se trata de algo que vai integrar uma festa do povo.

 

Além de escreveres marchas, também já te aventuraste a escrever fados.

Sim, mas é um trabalho diferente.

 

O que é que gostas mais?

(pensa) Acho que tenho este espírito muito português de ser muito fatalista e, por isso, gosto muito de escrever fados. Acabam sempre a ser histórias tristes de pessoas infelizes com a vida ou com o amor e eu gosto disso. (risos) Mas depois, o desafio de fazer algo mais ligeiro, como uma marcha, também me agrada.

 

Ainda no segmento da escrita: já assinaste alguns textos de revista à portuguesa e de comédia. É algo que te imaginas a continuar a fazer?

Sim. Não sei se queria fazer mais do que o que fiz até agora, porque escrever para teatro é um trabalho muito exigente. É muito mais difícil do que escrever letras, por exemplo. Não quero parecer pretensioso, mas acho que é mais fácil a escrita de uma letra. Na escrita de um texto de revista, temos de falar de um tema que já toda a gente conhece e, mesmo assim, fazer com que as pessoas ainda se riam. Portanto, às vezes temos de criar subterfúgios e tentar fazer isso com alguma graça. Além disso, acho, por si só, que escrever para teatro é algo muito difícil porque temos de fazer com que a mensagem chegue ao outro. Temos de ter a certeza que a pessoa que está a assistir vai entender, e na poesia isso não é tanto assim. É mais pessoal, pode ou não tocar outras pessoas. A revista é muito próxima do público, tem de ser mais direta, mas ao mesmo tempo tentar não ser óbvia e repetitiva. É um exercício de contornar muitas dificuldades.

 

E apesar dessas dificuldades, já escreveste muitas.

Sim. Não sei de cor quantas, mas foram muitas.

 

E continuas a escrever...

Sim, porque depois há algo maravilhoso que é escrever em parceria. Às vezes temos só uma ideia, não conseguimos desenvolvê-la, e a outra pessoa dá-lhe a volta. Ou vice-versa: a outra pessoa apresenta uma ideia para a qual precisa do nosso contributo. Descobri este lado bom de partilhar a escrita e, para revista, quero sempre escrever com outras pessoas. Não quer dizer que não escreva coisas sozinho, mas há sempre coisas que vão crescer com o outro...

 

Além do trabalho de escrita, também já te aventuraste no mundo da encenação. Como é que é "comandar" um grupo de colegas?

Toda a minha experiência em teatro é muito baseada na minha intuição, às vezes errada, mas é... (risos) E o que eu gosto na parte de encenação é ter de assumir o risco e a responsabilidade. Se correr mal a culpa é minha, não é de mais ninguém. Os atores não têm a culpa, os autores não têm a culpa. Eu é que decidi que determinada cena era para ser feita daquela forma e eu acho graça a isso. É um risco que eu gosto de correr e é gratificante quando se trabalha com um grupo de atores muito generoso que recebe bem uma proposta ou que também apresenta propostas. Essa troca ensina-me muito no meu trabalho como ator. Obriga-me a olhar para os outros de forma muito atenta, Se conseguir levar isso para a minha experiência, serei melhor.

 

Portanto, esse é um trabalho que queres continuar a fazer.

Sim, é um trabalho que quero continuar a fazer. Cada vez mais gostava de dirigir.

 

Gostavas de seguir mais a encenação e menos a representação?

Sim. Não quer dizer que o deva fazer, também não tenho assim tanta experiência para saber se posso fazer isso. Mas gostava cada vez mais de ficar a ver as coisas de fora. Daqui a 20 anos espero conseguir fazer isso. Para já, não tenho pressa, mas é algo que eu gostava de fazer.

 

Já aqui falámos de ti enquanto autor de marchas, de fados, de peças de teatro, de revistas à portuguesa; de ti enquanto encenador para chegarmos a ti enquanto ator que foi onde tudo começou.

Sim, sem dúvida.

 

Hoje em dia, apesar dos vários campos em que trabalhas, continuas a definir-te enquanto ator?

Sim, porque é o que acho que faço melhor. Por enquanto, acho que é o que faço melhor. Daqui a 20 anos, já posso definir-me de outra maneira, se tiver feito trabalho para isso e que prove que posso ser encenador ou outra coisa qualquer. Neste momento ainda acho que ser ator é o que eu faço melhor... Posso estar enganado, se calhar sou um canastrão... (risos)

 

Para quem não te conhece como ator, como é que resumias o teu percurso?

Eu comecei por fazer teatro amador, numa coletividade que tinha perto de casa, Os Combatentes, na zona Estrela. Depois, foi por ter feito teatro amador e por colegas que eram atores profissionais terem ido assistir que a coisa se foi dando. Havia projetos em que faltava um ator e esses profissionais lembravam-se de mim e chamavam-me. Alguém achou que eu tinha jeito e foi por isso que eu comecei a fazer teatro profissional. Não foi uma coisa que eu decidisse. Fazia teatro amador sem a pretensão de me tornar ator profissional, por isso é que nunca fui estudar teatro. Achei que acabava o 12.º ano e ia para Direito... Mas não fui. (risos) Aconteceu tudo um bocadinho por acaso, mas depois percebi que gostava mesmo disto.

 

Ao longo desse percurso, por onde é que tens andado?

Tenho feito sobretudo teatro de revista. Comecei logo no Teatro Maria Vitória com a Marina Mota e o Carlos Cunha. Gente muito gira. Estive dois anos no Casino Estoril com espetáculos do Filipe La Feria e depois voltei para o Teatro Maria Vitória que é onde tenho estado a fazer muitas revistas. Vou tentando fazer outros espetáculos, noutros registos, mas o teatro de revista é o principal.

 

É na área da revista que te imaginas a continuar a trabalhar?

Eu tenho muita vontade fazer outras coisas, mas também sei que é tudo uma questão de oportunidade. Tenho contas para pagar.

 

Além de seres ator, também és intérprete. Como é dar voz a tantas emoções?

Eu olho para o Fado de uma maneira prática: vou cantando um fadinho aqui e outro ali. Nunca estive fixo numa casa de fados. O teatro nunca me deu tempo e espaço para isso e eu também não sei se era isso que queria, porque gosto muito de fazer aquilo que estou a fazer no Chapitô. É só uma vez por mês e dá para estar ali uma noite com os amigos e, o final da noite, já se torna mais uma tertúlia em que depois cantamos todos e é muito giro. É isso o que eu mais gosto e, sempre que me pedem para fazer uma noite de fados, é dessa forma que eu gosto que acabe. Não sei se me imagino todos os dias a cantar numa casa de Fado. A entrar às 21h e a sair à meia-noite e a cantar para gente que, normalmente, não percebe o que estamos a dizer. Gosto mais desta partilha que se consegue criar nessas noites...

 

Tendo em conta as várias áreas em que tens vindo a trabalhar, o que é que gostavas que viesse a acontecer num futuro próximo?

Gostava de ter alguma surpresa, de fazer algo que ainda não tenha feito como ator. Tenho feito muito teatro, mas fiz pouca televisão... Do que fiz, gostei de fazer.

 

 

O que é que já fizeste?

Fiz a última temporada dos Morangos com Açúcar, na TVI, e depois fiz participações pontuais em alguns projetos.

 

E gostavas de fazer mais?

Sim, gostava. Sobretudo porque acho que é algo que não faço bem e quero aprender a fazer melhor. Quero que isso aconteça, fazendo. Acho que só a experiência é que me poderá trazer a sensação de, daqui a uns anos, olhar e pensar que fiz bem alguma coisa em televisão. Em teatro, gostava de fazer coisas diferentes. Gosto muito de revista. Acho que, se um dia deixar de fazer, mais tarde vou querer voltar a fazer. Mas agora gostava de fazer outras coisas.

 

Concretiza um bocadinho mais.

Outros géneros.

 

Estás a falar de experimentar fazer drama?

Sim. Eu fiz um monólogo com produção da Abraço que foi algo muito longe do humor e eu gostei muito da experiência porque me fez ir a zonas onde eu não tinha ido. Não é porque acho que fiz bem, é sobretudo por achar que é algo que ainda não sei fazer. Sinto que essa experiência me pôs em causa e, às vezes, é importante sairmos da zona de conforto onde acho que estou quando faço revista. Não é que ache que já tenha feito tudo em revista - não fiz - mas já olho e já percebo qual é o caminho das coisas... Agora gostava de me deparar com algo que me colocasse em dúvida, que me fizesse pensar "não sei como é que vou fazer isto e preciso que alguém me explique como é que vou fazer isto".

 

Já disseste que gostavas de ter uma surpresa. Enquanto essa surpresa não surge, com o que é que podemos contar?

Vou continuar no Maria Vitória. Já fui convidado para encenar e também para participar enquanto autor. Isso está quase certo. Depois, não há nada ainda concreto. Estou a aguardar para ver o que é que acontece.

 

Posto tudo isto, Flávio Gil, quem és tu?

Sei lá! Sou essas coisas todas e às vezes não sou nenhuma. Não sei responder-te a isso.

 

Mas tenta. Quem é o Flávio Gil?

(pensa) Estás a ver porque é que eu não gosto de entrevistas?

 

Neste caso, já deste uma. Já estamos na última pergunta, conta-nos lá mais sobre ti.

Sei lá. Sou uma pessoa como as outras todas. Vou fazer-te um rol de frases feitas... Sou a mesma pessoa que as outras todas, com sonhos, com vontades. Gostava de conseguir todas as coisas com que sonho. Algumas são possíveis, outras não... Não acho que seja muito ambicioso, acho que tenho os pés bem assentes na terra. Há colegas que têm aquela ambição de serem atores no estrangeiro e eu nunca pensei sobre isso. Gostava muito que um dia soubessem quem eu sou e que se lembrassem que fiz alguma coisa bem feita, mas não tenho a ambição de ser estrela de Hollywood, confesso. Nunca pensei nisso, gosto muito de estar aqui no meu canto.

 

 

 

Agradecimentos: Village Underground Lisboa

 

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

 

 

 

 

 

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