«Sou uma apaixonada por televisão »

JOANA BASTOS. Quer seja à frente ou atrás das câmaras a caixa mágica domina a vida da também estudante de marketing. No ano passado integrou o elenco da peça Eu, Tu e a Terapeuta e para 2017 o que espera é que "haja trabalho".


Neste momento estás inserida na equipa de direção de atores de uma telenovela, certo?

Sim, neste momento estou a fazer a direção de atores do elenco infantil da novela Ouro Verde, na TVI.


Esse é um trabalho que já fizeste várias vezes...

Sim...


Como é que têm sido essas experiências?

O trabalho de direção de atores e de direção de elenco infantil consiste em ajudar os atores a ver se está tudo certo na cena em termos de raccors emocionais, se está de acordo com a personagem, como é que a personagem reage naquela cena, como é que não deve reagir... No fundo, ver de fora como é que está a correr o trabalho. Às vezes, quando estamos a representar até podemos achar que estamos a dizer aquela frase de uma certa forma, mas na realidade ela não estar a soar como nós achamos.


E como é que é fazer esse trabalho com miúdos, como estás a fazer agora com o elenco infantil da novela Ouro Verde?

Eu gosto muito de trabalhar com miúdos. As crianças não têm uma coisa que os adultos têm que é a noção do ridículo e isso barra-nos em muitas coisas. Pensamos "não vou fazer isto porque não fico bem ou porque fica estranho"... Colocamos sempre algumas barreiras entre nós e aquilo que estamos a fazer e as crianças não têm isso, portanto, quando se conquista uma criança, no sentido de elas confiarem no diretor deles plenamente, tudo o que se peça, eles fazem com uma espontaneidade e uma verdade muito grandes e isso é muito bonito.


Neste momento diriges crianças e, como atriz, já trabalhaste para elas em várias peças de teatro para a infância. Como foram as várias experiências?

Tive a sorte das peças infantis que fiz terem sido no Teatro Infantil de Lisboa e terem sido com o Fernando Gomes a encenar e a escrever as peças. E ele é um ator, um encenador, um dramaturgo que não escreve propriamente para crianças, ou seja, não faz aquelas coisas muito infantilóides que às vezes podemos ver... Às vezes eram espetáculos de duas horas de musical. Em termos de público é semelhante ser um espetáculo infantil ou não, porque a exigência está sempre lá. Às vezes nos espetáculos infantis até há mais exigência por serem musicais, uma vez que temos de representar, cantar e dançar...


E gostas disso?

Sim, gosto. Acho que é sempre uma oportunidade para aprender. Aprendemos muito. Parece uma frase feita, mas a verdade é que se aprende muito, mesmo. A nossa ingenuidade como seres humanos existe quando somos mais pequenos e o nosso percurso na vida leva-nos a ter mais barreiras, mais feridas que, às vezes, nos impedem de chegar lá, porque perdemos alguma da nossa espontaneidade. Uma vez li uma coisa sobre Picasso que dizia que ele passou metade da vida a aprender a desenhar e a outra metade a tentar desenhar como as crianças. Lá está: essa pureza com que nascemos, perde-se um bocadinho.


Sentes que estas peças infantis também servem para recuperares esse espontaneidade?

Sim, tento recuperar, porque acho que é uma coisa que se perde e que se aprende, que se perde outra vez e que se recupera e que se vai continuando a perder... Isto porque não sou criança. Sou uma adulta num mundo de adultos. Acima de tudo, quando trabalho como atriz, tento trabalhar da melhor forma para que a minha personagem seja tão verdade quando, em crianças brincávamos ao faz de conta... Espero que isto não pareça muito estranho. (risos)


Além da direção de atores, o que tens feito recentemente?

Mais recentemente o que fiz foi a peça Eu, Tu e a Terapeuta, que esteve em cena no Teatro da Trindade e no Teatro Armando Cortez. Era uma comédia escrita pela Eduarda Laya e encenada pelo Hugo de Sousa com a Isabel Ribas e o Miguel Dias, com produção da Buzico! Produções Artísticas, e foi muito bom. Foi uma experiência muito boa.


Ao longo dos anos tens também participado em vários projetos em televisão, como é que tem sido?

Tem sido maravilhoso. Eu gosto muito, muito, muito de televisão. Muito, sou uma apaixonada por televisão.


O último projeto em que estiveste inserida foi na novela da TVI Mulheres, certo?

Sim, exato.


Era uma participação especial ou fizeste a novela toda?

Fiz a novela toda. Eu gosto muito de trabalhar em televisão, gosto muito do ritmo, da técnica... Sempre fui apaixonada por televisão e continuo a ser. Consumo muita televisão.


Tens alguma previsão para voltares a trabalhar em televisão como atriz?

Não. Neste momento estou a fazer a direção do elenco infantil da Ouro Verde e a estudar na faculdade, depois logo se vê.


O que é que estás a estudar na faculdade?

Publicidade e Marketing.


Então e além disso não tens grandes planos?

Eu não distingo muito o que é que eu gostava de fazer ou o que é que gostava de que acontecesse. Quero que haja trabalho, sobretudo. Há coisas que gostava de fazer mas que não posso contar... (risos)


Nem de uma forma muito genérica?

Não sei... É que eu nunca tive oportunidade de gerir a minha carreira. As coisas vão aparecendo, vão surgindo. Não faço parte da elite que consegue gerir a carreira. Eu gosto de trabalhar, ponto.


E como é que lidas com a imprevisibilidade da profissão e da área onde trabalhas?

É horrível! Uma pessoa chega ao final de cada projeto e fica aflita: "o que é que eu faço?"; "como é que isto vai correr agora?". Felizmente, e já trabalho desde 1998, as coisas foram acontecendo, uns anos melhores, outros anos piores, mas é muito aflitivo viver nesta incerteza. Claro que gostaria de saber o que vou fazer a seguir e ter os anos planeados à partida... Gostava disso e gostava de poder ir fazendo o que me apetecia fazer. Mas isso não acontece.


Já te habituaste a essa instabilidade?

Vou gerindo e também sou apologista que, quando há menos trabalho, nós também podemos criar esse próprio trabalho. Por exemplo, a peça Eu, Tu e a Terapeuta surgiu disso mesmo. Eu estava numa fase sem trabalho e acabei por começar a ver o que é que se podia fazer e com que pessoas é que podia fazer alguma coisa. Foi assim que fui ter com a Eduarda Laya e propus-lhe escrever uma peça e ela escreveu brilhantemente e depois a peça correu muito, muito, muito bem e estivemos esgotados no Teatro da Trindade durante um mês, portanto, foi muito bom. E aí aprendi que quando não há trabalho, também se pode trabalhar para que ele exista e assim vamos fazendo coisas. Claro que gostava de ter dinheiro para fazer os projetos todos que estão parados e que estão na minha cabeça.


Hoje é sexta-feira, é dia de sorteio do Euromilhões: o que é que fazias com o dinheiro se te saísse o jackpot, dentro daquilo que podes dizer...

Claro que, primeiro que tudo, fazia uma viagem gigante. Viajava, viajava, viajava. E depois organizava a vida toda e acho que fazia algumas das coisas que estão, não digo nas gavetas lá de casa, mas que estão nas pastas do computador e que vão sendo adiadas.


Em Portugal, a falta de dinheiro limita essa realização de projetos?

O Estado apoia e deve apoiar a cultura, a educação, a saúda, a habitação... Mas acho que neste momento, as empresas e as marcas têm de começar a fazer um marketing cultural e é por isso que também estou a estudar marketing, porque gostava de fazer marketing cultural. Acho que é uma das coisas que se pode fazer. Trata-se de dar contrapartidas às marcas mediante o apoio. Acho que se deve encontrar uma marca que esteja relacionada com o projeto que estamos a fazer e unir as duas vertentes, a cultural e a empresarial...


Isso é pouco comum em Portugal não é?

Sim, é muito pouco comum. Ainda. Acho que é uma luta e pode ser uma coisa possível de acontecer porque a visibilidade das marcas aumenta com este tipo de apoios e patrocínios, se for a marca certa ligada com o projeto certo, obviamente. E é nesse sentido que quero trabalhar quando terminar o curso.


E isso vai ser quando?

Se tudo correr bem, para o próximo ano.


Depois de te teres revelado uma atriz apaixonada por televisão e que estuda marketing, diz-nos lá quem é a Joana Bastos.

Depende dos dias. (risos)


Como assim?

Há momentos em que me apetece muito trabalhar como atriz, há momentos em que me apetece trabalhar como diretora de atores, gosto muito de fazer produção... Quando digo que gosto de trabalhar é porque eu gosto mesmo de trabalhar. Gosto de ver as coisas a acontecer, independentemente de como eu estou a participar. Por isso é que digo que depende dos dias e acho que foi por gostar de fazer muita coisa e por gostar que as coisas sejam feitas que me tornei atriz. Eu gostava de ser tudo e só havia uma maneira, no prazo de 100 anos que é o tempo que eu espero viver, de ser tudo, que era sendo atriz. Como atriz posso ser tudo.



Agradecimentos: Village Underground Lisboa


Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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