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«Quero sentir-me desafiada»

BRIENNE KELLER. Os olhos verdes refletem o espírito inquieto dos 23 anos acabados de fazer. De nome francês, família brasileira e um percurso feito no mundo, Brienne Keller assume que quer sempre mais. Em Portugal ou noutro país, sabe o sonho que guarda e é para ele que trabalha.

 

 

O teu último projeto foi Ouro Verde, na TVI. Que personagem interpretas?

A minha personagem é a Weslein que é uma das empregadas da fazenda. É muito ingénua de uma forma cómica, como se cada novo dia ela descobrisse algo de novo. A fazenda vai tendo cada vez mais gente, mais história e mais drama e ela acompanha tudo isso. É uma menina novinha que está a desabrochar.

 

E como é que tem sido o trabalho em televisão?

Esta é a minha primeira experiência televisiva em Portugal e tem sido bom. A personagem tem crescido bastante, por isso, ultimamente tem sido mais caótico em termos de gravações. Sinto que não consigo dar tanta energia e dedicar-me tanto porque tenho de gravar muitas cenas. Era diferente quando gravava só três dias por semana e tinha tempo para ver tudo. Mas está a ser ótimo.

 

Agora estás a gravar quantos dias por semana?

Agora estou a gravar cinco dias por semana. Mas em princípio vai acalmar um bocadinho, de novo. Mas é engraçado porque agora sinto-me muito mais próxima da personagem do que estava em janeiro. E é bom porque nos dão liberdade para criarmos a personagem como acharmos melhor. Está a ser divertido!

 

Disseste que é a primeira vez que fazes televisão em Portugal. Que outras experiências é que tiveste?

Fiz uma minissérie em Madrid, Espanha.

 

E como é que correu? É muito diferente?

Sim, muito diferente. Eu já tinha feito algumas peças de teatro lá, em Madrid, mas era a primeira vez que fazia televisão. Falava em espanhol e é sempre diferente para nós estarmos a representar noutra língua. Mas foi muito interessante e foi uma aprendizagem muito importante. Olho para essa experiência dessa maneira. Fui mesmo aprender a fazer. Falar de uma forma fluente numa língua que não é a nossa e que não dominamos é um grande desafio…

 

Falavas em espanhol, sempre?

Sim. A personagem era espanhola.

 

Em Espanha, além da minissérie, fizeste outros projetos de teatro e teatro musical.

Sim. Trabalhei com duas companhias. Uma escocesa e outra de Nova Iorque. O Madrid Players e o Interacting, onde fui professora e diretora. Dava aulas de teatro e de teatro musical. Encenei lá duas peças com crianças e adolescentes.

 

Como é que te sentiste nesse papel?

Foi ótimo. Eu comecei esse trabalho de professora/ diretora em Praga, quando colaborei com os Prague Youth Theatre seis meses. Aí é que foi uma imersão total nesse campo que eu desconhecia. Tínhamos cinco grupos de idades, cinquenta miúdos em cada grupo. Foi um bocado caótico, mas foi ótimo.

 

Tens 23 anos acabados de fazer e várias experiências que te levaram a trabalhar noutros países, com dezenas de organizações. A quem não te conhece, como é que descreverias o teu percurso?

[Pausa. Sorri.] Muito conhecimento que chegou até mim de formas diferentes. O que acho é que nós aprendemos a mesma coisa, por mais que estejamos em Londres, em Madrid, em Praga ou em Lisboa. A técnica de ator, o percurso, a prática, o estar em palco, a experiência… tudo isso é igual independentemente da cidade ou país onde estamos. Estando em outros sítios, com métodos e visões diferentes, o que acontece é que adquirimos esses conhecimentos de forma diferente. Para mim foi muito importante ter estado fora. Foi sair do meu espaço de conforto, foi muito importante para mim.

 

Porquê?

Sinto que me deu muito. Saí de casa com 16 anos, foi muito cedo. Sinto que hoje sou o que sou porque fiz o percurso que fiz. Quero continuar a viajar e a pôr-me em situações que me desafiem e que me coloquem constantemente à procura.

 

Imaginas que isso te leve a outras cidades noutros países?

Era bom, gostava muito.

 

Imaginas-te a continuar esse percurso?

Tentando criar uma linha de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Tenho uma relação há muito tempo e vamos comprar agora a nossa casinha… Tentar equilibrar as coisas é o objetivo, mas, definitivamente, quero tentar continuar a colher experiências como as que tive até agora.

 

Mas, profissionalmente, imaginas-te a viajar?

Sim. O teatro musical é muito especial para mim porque eu comecei a cantar antes de representar e é aquela área em que sinto o prazer de cantar e representar ao mesmo tempo. Gosto muito. Se me perguntares o que é que eu quero mais fazer entre televisão, teatro, o que eu te vou responder é teatro musical. Passei um ano em Londres e tenho muita vontade de chegar a um palco grande como o West End ou a Broadway. Mas… sei que são precisos muitos sacrifícios.

 

Tens esse sonho?

De estar num grande palco a fazer um musical?

 

Sim, de estares no West End, por exemplo.

Quem é que não tem? Trabalhar com grande pessoas, num trabalho com qualidade… Sim, tenho esse sonho.

 

E trabalhas para isso?

Nós na vida vamo-nos sempre desviando, por coisinhas pequenas…

 

Sim, mas apesar desses desvios, sabes que existe um sonho que queres atingir? Tens essa consciência?

Sim. Gostava muito. Claro que depois há muitas outras vontades, em termos pessoais. Quero ter filhos. Quero viajar muito. Quero ajudar muito. Estou envolvida no Projeto Amélia, que é um projeto muito especial… É muita coisa e não, eu não sou daquelas pessoas que abdica de tudo para conseguir algo. Não sou e talvez demore mais para chegar a algum lado…

 

A tua nacionalidade é portuguesa, mas o teu nome não. Conta-me quais é que são as tuas origens.

O meu nome é francês porque a minha mãe teve um sonho, antes de eu nascer, de uma menina chamada Brienne. Quando acordou, as águas rebentaram e então ela decidiu chamar-me Brienne. [risos] Mas, quanto às minhas origens, os meus pais são brasileiros, de São Paulo, e eu nasci em Lisboa.

 

Ainda bem que a tua mãe não sonhou com uma criança chamada…

Felisberta! [risos] Como os meus pais são brasileiros, não houve problemas com o registo do nome. Depois, quando tinha 10 anos fui viver para Natal, no Brasil. Por isso é que a Weslein tem sotaque nordestino. É quase como uma homenagem ao tempo que lá estive.

 

Quer dizer que, para ti, não foi difícil chegar àquele sotaque.

Não. Eu sempre gozei com aquele sotaque! [risos] Vivi em Natal três anos e nunca falei daquela maneira. Mas tenho uma irmã mais nova que viveu lá até ao ano passado e então ela fala com sotaque nordestino com as amigas de lá. Eu sempre achei hilariante e em casa sempre brincámos com isso. Os meus pais são paulistas e o meu sotaque brasileiro é paulista. Se a minha mãe me ligasse eu ia falar com ela em português do Brasil.

 

Então posso pedir-te para, no que resta desta entrevista, falares com sotaque brasileiro?

[Já com sotaque.] Claro que sim. [risos] Foi engraçado porque, no primeiro dia de gravações, cheguei aos estúdios e fui ter com o João Pedreiro e pedi-lhe para me contar pormenores da personagem. Disse que estava prestes a gravar e que não sabia nada, que só sabia que se chamava Weslein. E ele disse “oh baby, é isso”… E eu ainda insisti com perguntas sobre o que queriam que eu fizesse. Que sotaque queriam, o que é que ela está afazer, tem mãe, tem pai, tem alguma relação com alguém da fazenda? E ele acabou por tomar algumas decisões ali e por me ajudar a construir algo. Decidi fazer uma coisa mais cómica e de homenagear Natal com aquele sotaque.

 

 

Já disseste que com o que te identificas mesmo é teatro musical. Estás a gravar uma telenovela por mais uns meses. O que é que tens mais no horizonte?

Nada. Quero voltar a estar no palco. Tenho algumas saudades.

 

E não há nada nesse sentido?

Há algumas ideias, mas que não posso revelar, porque ainda não é nada certo.

 

Dos projetos que tens feito, nesse registo, achas que o teatro musical, em Portugal, está bem entregue?

Está a melhorar muito. Sinto que existe agora um grupo de atores de teatro musical que é muito forte e é muito bom ver produtoras a apostar em teatro musical. Ainda mais por essa aposta ser feita em projetos menos comerciais. Há peças que são superpoderosas, que têm mensagens fortes. Mas se não forem comerciais, não são feitas. Fiz o “Despertar da Primavera” em 2013. Tínhamos uma tournée marcada que não aconteceu porque os teatros não compraram. Porque é um espetáculo forte. Tem sexo. É tabu. E, para mim, esses são os mais interessantes. Custa-me estar em palco e não passar uma mensagem, não ajudar a mudar alguma coisa em que está a ver. Um exemplo disso foi o “Quase Normal”. Uma história complexa, muito bem feita, com um ótimo elenco e que deixa algo no espectador. Infelizmente ainda é difícil ver esse tipo de abordagem no teatro musical. Mas está a melhorar. Eu voltei, depois de três anos fora, e fiquei surpreendida.

 

Depois de percebermos quem és tu, como atriz, diz-nos quem és tu, Brienne Keller.

Eu sou uma rapariga cheia de vontade de fazer. Tenho dificuldade em esperar, em não fazer nada. Quero fazer. Quero sentir que não consigo e depois conseguir. Quero sentir-me desafiada. Sonho alto, mas ao mesmo tempo, sonho justo. Sei o que pode e o que não pode acontecer e tenho uma vontade muito grande de não parar. Gravar uma novela de janeiro até julho é ótimo, mas sabe-me a pouco. Quero mais.

 

Não tens receio que essa vontade de mais te retire a capacidade de saborear?

[Pausa]

 

Ou não pensas nisso?

Eu saboreio o processo.

 

Consegues?

Consigo... Consigo saborear muito. Mas sim, talvez quando estiver no meio de mil projetos a fazer tudo, vou estar na merda. Vou pensar que não vou conseguir.

 

Faço-te esta pergunta porque estás a dizer que queres mais e mais. Mas às vezes, quanto mais fazemos, desfrutamos menos e o tanto que queríamos, passa-nos ao lado sem que nos apercebamos.

Sim. Eu quero mais, mas não tem de ser tudo ao mesmo tempo. Agora puseste-me a pensar que às vezes queremos fazer muita coisa e não fazemos nada bem porque temos mil e quinhentas para fazer. O que quero é poder saltar de projeto em projeto. Fazer coisas novas, que nunca tenha experienciado antes e sentir aquela adrenalina de achar que foi uma loucura ter-me metido em determinado projeto, porque não vou ser capaz, e no final ver que até fui…

 

Obrigado, acho que te conseguiste descrever bem.

Obrigada eu. 

 

Agradecimentos: Village Underground Lisboa

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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