31.08.2019

11.01.2019

Please reload

Posts Recentes

Mia Tomé homenageada no CineCôa

29.11.2019

1/3
Please reload

Posts Em Destaque

«Gosto de chegar ao coração das pessoas»

FILIPA DUARTE. Já encenou espetáculos, já fez televisão e tem integrado vários projetos de teatro para a infância. Garante que o musical que está a fazer, neste momento, lhe enche as medidas. A pele morena revela as suas origens goesas e o sorriso rasgado denuncia uma atriz de bem com a vida. Alguém que assume que gosta de chegar ao coração de cada um e que, acrescentamos nós, na maior parte das vezes, consegue.

 

 

Integras o musical inclusivo Fada Juju e a Festa dos Sentidos, um projeto que se tem revelado um sucesso. Como é que tem sido toda a experiência?

Está a ser incrível. Sinto mesmo que é um trabalho diferente. O meu percurso tem passado por vários trabalhos para a infância, entre peças de teatro e musicais, mas este projeto é diferente. Sinto que é mesmo para toda a família, dos mais pequeninos aos mais velhos, e muito por ser um musical inclusivo. Acho que, pela primeira vez em Portugal, existe um ator surdo a fazer parte de uma peça de teatro só com ouvintes e isso é incrível. Desde cedo que todos aprendemos a língua gestual, num processo que foi muito rápido porque a estávamos também a praticar no nosso dia-a-dia. Se tivéssemos um ator a fazer de surdo, eu não sabia o que sei agora. Acho que o facto de incluirmos no espetáculo personagens que têm deficiência marca muito. São pessoas surdas, pessoas de cadeiras de rodas, pessoas cegas que acabam por ser abrangidas. Conseguimos integrar a diversidade do que existe no dia-a-dia, mesmo que não nos apercebamos ou não queiramos saber.

 

Tens essa noção?

Sim, muito. Eu integro dois projetos que me fazem ir muitas vezes a escolas e vejam muita coisa. Há crianças muito carenciadas, crianças surdas, crianças com outras deficiências que as obrigam a estar em cadeiras de rodas... Como é que nós chegamos a essas pessoas? Crianças, pais, famílias...

 

E foi esse trabalho que tu e toda a equipa fez neste musical inclusivo, não é?

Sim, isso mesmo.

 

E, para quem ainda não sabe do que se trata, conta-nos lá que musical é este?

Este projeto surge, primeiro que tudo, através da Paula Teixeira. É uma mulher incrível, com um coração gigante e que há anos que é tradutora de língua gestual. Ela tinha este sonho de fazer uma peça de teatro que contasse as histórias da Fada Juju que já estavam nos seus livros. Fez-se esse apanhado até se chegar à peça que temos em mãos: Fada Juju e a Festa dos Sentidos. Um musical que está em cena no Teatro da Trindade até 27 de maio, aos sábados à tarde e domingos de manhã. Quanto à história, a Fada Juju é uma fada que escolhe uma menina que é a Noa, a minha personagem, para poder viajar por este mundo feito de alguns amigos especiais. A Margarida, que anda de cadeira de rodas, o Tomás que não ouve e o Gaspar que não vê. A Fada Juju tem um dom e uma missão que ainda não sabe bem quais são. E depois percebe que tem uma facilidade com a música e com o facto de falar com as mãos. Passa isso para a Noa e para a Margarida e também para o Tomás e para o Gaspar que, com a ajuda da Juju, passam a conseguir brincar todos juntos, coisa que antes não acontecia.

 

Ao ouvir-te falar sobre este projeto, percebe-se que estás feliz por fazer parte dele.

Eu estou mesmo muito feliz por fazer esta peça! Preenche-me muito. Está ali uma equipa de atores, encenador, produção muito especial. E depois saberes que fazes parte do sonho de alguém, é um privilégio do caraças! [risos] Desculpa a expressão. [risos] Mas é mesmo um privilégio grande. A minha personagem é, na vida real, a filha da Paula Teixeira. Ainda me sinto mais grata e com maior responsabilidade. Estou a dar voz a uma filha, a uma criança que existe e que é a paixão da vida da Paula. É incrível fazer parte do sonho de alguém. E depois, a recetividade tem sido muito boa por parte dos pequeninos que ficam encantados com a música, com a Fada, com o cenário... E pelos mais velhos que ficam emocionados com aquelas palavras e com aquela mensagem. Tem sido tudo muito especial.

 

Nota-se no teu olhar e na maneira como falas que estás feliz por fazer parte deste projeto.

Muito, muito. Mesmo!

 

Este não é, de todo, o teu primeiro projeto de teatro para a infância.

Eu adoro trabalhar para esse público. Eu ainda não tinha acabado o curso de atores da Escola Superior de Teatro e Cinema e comecei a fazer ateliês para as crianças no Museu do Traje. E desde aí que elas sempre estiveram no meu percurso. Não foi algo racional, foi acontecendo. Terminei a Escola, comecei a dar aulas de Educação pela Arte, no concelho da Amadora. Comecei a fazer teatro com os Tapa-Furos que não era para a infância. Depois fiz uma audição para a Plano 6 e fiquei no musical Careta, a Tartaruga que defende o planeta, no Oceanário de Lisboa.

 

Encenada pelo João Ascenso que agora te volta a dirigir no musical da Fada Juju.

Isso mesmo! [risos] Na altura, antes ainda de fazer a audição, eu sentia que queria ser um desenho animado, mas achava que era impossível até que percebi que não era. Quando se integra um projeto de teatro para a infância, somos um bocadinho isso. E naquele projeto eu fazia uma tartaruga e um polvo e divertia-me mesmo muito! Percebi que projetos como aqueles são os certos para as crianças. A mensagem que passa, a qualidade com que são feitos, os cenários e figurinos fantásticos... Eu vejo pela minha filha que está quase a fazer dois anos que tudo é motivo de interesse. As músicas, as cores. Tudo aquilo é uma viagem.

 

 

Além desse projeto em particular, já fizeste outros musicais infantis, já fizeste dobragens, já fizeste alguns papéis em televisão, algumas curtas-metragens... Neste percurso, onde é que sentes que te encontras, verdadeiramente, enquanto atriz?

As dobragens voltam a ser a tal oportunidade de ser um bocadinho desenho animado porque é, principalmente, o produto que dobro. Neste momento está no ar o Sanjay and Craig, no Nickelodeon. É um trabalho muito divertido e do qual eu gosto muito. Não é só dar a voz, é dar a voz com o corpo todo. É algo que não é fácil, não é a voz que eu quero dar, mas é a voz que o boneco me pede para dar. Quanto a televisão, já fiz algumas vezes e gosto muito. Tenho pena de não ter oportunidade de fazer mais vezes. Quando fiz Morangos com Açúcar, que foi o projeto televisivo a que estive mais tempo ligada, senti-me mesmo bem. Senti-me fluida. Gostei daquele mundo de estar num decor quase como se fosse a minha casa... Claro que é um trabalho que é diferente do teatro. Aí existe logo uma reação direta, mesmo que seja através de silêncios. Gosto tanto de uma coisa como de outra. Sem dúvida que o teatro está mais presente na minha vida. Tenho feito mais direcionado para as crianças, mas também gosto de o fazer para adultos. Houve uma peça que fiz, que foi a Branca de Neve, e que gostei muito. Era só texto - muito, muito, muito! - e chegar com um texto daqueles, difícil, ao público adulto é algo muito gratificante e que me preenche muito. Quando estamos em boas produções acho que nos sentimos preenchidos.

 

Nesse percurso também já experimentaste a encenação. Como é que foi?

Também gosto muito! [risos] Se calhar gosto muito de tudo! [risos] É mesmo. Sinto-me muito apaixonada quando estou a fazer esses trabalhos. O que mais gosto na encenação é poder tirar o melhor de cada um. E há algo muito importante que é trabalhar com corações, é trabalhar com pessoas. Não estou ali a trabalhar com robôs. No teatro trabalhamos com sentimentos e eu gosto de ir com pinças a cada ator e perceber o que é que cada um tem para dar. Às vezes têm algo que nem sabiam e poder ajudá-los a descobrirem isso é muito gratificante. Já trabalhei com atores mais novos que eu e com outros que eram mais velhos que eu e é sempre um trabalho incrível. É a construção de algo em grupo. Os atores dão-me ideias, eu dou ideias e estamos ali todos em conjunto.

 

É algo que gostavas de continuar a fazer?

Gostava muito, sim. Gostava mesmo muito. Poder dirigir pessoas é um trabalho muito interessante porque tem uma vertente sobre respeito, sobre ouvir o outro, sobre debater opiniões... sempre de forma fluida. É algo que, às vezes, sinto falta. Enquanto encenadora acho que o mais importante é trabalhar a personagem. Se um ator estiver sólido na personagem, o texto vai fluir e todas as ações físicas vão fluir. No dia em que haja uma branca, um esquecimento, as coisas vão fluir na mesma porque o ator vai estar tão sólido na personagem, que é quase como se não houvesse margem para erro. Para mim, enquanto enceno, tudo tem de estar muito delineado para que o ator se sinta livre. Pode parecer contraditório, mas para mim não é. Sou minuciosa e acho que, quanto mais rigor houver, maior liberdade o ator vai sentir, porque sabe que está apoiado.

 

Além de gostares de trabalhar mais como encenadora, o que é que gostavas que te estivesse reservado num futuro próximo?

Neste momento, a nível de encenação, não creio que seja para um futuro tão próximo, apesar de eu gostar que isso acontecesse.

 

E tirando a encenação, o que é que está planeado?

É continuar com a Fada Juju. Até ao final de maio estamos em cena no Trindade. Depois voltamos em setembro, com espetáculos no Porto, e lá para novembro está previsto regressarmos a Lisboa. Ao mesmo tempo, continuo com os projetos da Brisa e da REN, em que vou às escolas de norte a sul do país. São dois projetos educativos: um sobre segurança rodoviária e outro sobre espécies em vias de extinção. É um trabalho gratificante e que também gosto de fazer. Vejo todas as realidades. Passamos por colégios, por escolas públicas, por grandes cidades e por aldeias recônditas... É muito bom. Além disso, é ver o que surge.

 

Já percebemos que vives com grande intensidade e paixão o teu trabalho e que o teu futuro vai continuar a passar pela representação... mas agora diz-nos lá: quem és tu, Filipa Duarte?

[risos] Quem sou eu? [pensativa] Sou uma pessoa que gosta de chegar aos corações das outras. Às vezes é-me difícil, às vezes não me apetece esforçar-me tanto, mas gosto. Não me interessa se és um bom ator, se és um bom encenador, se és um bom aluno... Não tem nada a ver com isso. Gosto de conhecer pessoas. Tentar perceber o que é que as move, o que vai no coração delas. Sobretudo é isso... Não gosto de estar acompanhada de muita gente porque não consigo falar verdadeiramente com cada uma e não consigo chegar a cada coração. Prefiro estar como estamos aqui os dois a conversar e que se juntasse mais uma ou duas pessoas, e falarmos sobre a vida. Eu acho que isso também é o teatro. Interessa-me mais saber como é que as pessoas estão do que o que é que andam a fazer. Quando chego a uma escola, eu sei que tenho um texto para dizer e que tenho informação para passar, mas se puder passar mais do que isso, ganho o dia. [sorri]

 

 

Agradecimentos: Village Underground Lisboa

 

Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload